19.1.17

mau amor [imperfeições alheias]


O que levará uma mulher independente, adulta, autónoma, livre a transformar-se num ser aprisionado por um suposto amor?
O que levará um homem adulto, livre, a perpetuar actos violentos sobre uma mulher em nome de um suposto amor?

Todos os dias somos confrontados com notícias de mulheres violentadas, agredidas ou até assassinadas pelos seus maridos, amantes, namorados em nome de um amor extremo, de um ciúme passional ou outra qualquer razão estranha que jamais poderá justificar tais actos hediondos. As sociedades têm facilitado o uso da violência, a diminuição da mulher perante a supremacia do homem, a complacência dos meios de justiça, a ordinarização dos actos de maldade e temos deixado que a evolução do ser humano se paute por valores monetários, de aparência socioeconómica, onde tudo vale e nada se pune.

Serão as mulheres também responsáveis pelos crimes cometidos contra si mesmas, sendo elas mães e educadoras de futuros homens machistas, egocêntricos, sociopatas? Estarão as mulheres aquém das suas responsabilidades no desenvolvimento de filhos respeitosos, equilibrados, generosos, educados consoante os padrões da liberdade individual e do companheirismo entre casais?
Estarão os homens condenados ao estigma do comportamento selvagem e animalesco, onde o sexo impera e a vulnerabilidade sentimental é vista como “lepra social”, onde a postura dominante parece envolvê-los em atitudes másculas, agressivas, ditatoriais perante o tão chamado “sexo fraco” feminino?
Ou seremos todos responsáveis, uns por omissão outros por enraizamento social, geracional?
Será a sociedade actual a maior responsável pela alienação do direito de amar e ser amado sem limite de afectos ou encarceramento da liberdade individual, quando expõe cada indivíduo a um sem fim de actos violentos, sanguinários, egocêntricos, bélicos, xenófobos, de exclusão de classes, de pobreza extrema?

Todas estas questões me atravessam o pensamento numa idade em que cada vez me é mais difícil compreender como se pode o amor transformar em prisão, em ódio, em ciúme destrutivo, em humilhação; o que fará um homem ou uma mulher ter prazer em actos de diminuição do seu semelhante, do seu ente querido, do seu companheiro de vida…? Porque nos é cada dia mais fácil assobiar para o lado, acreditando que certos problemas só acontecem aos outros, aos mais fracos que nós, aos mais pobres ou mais incultos, aos que sofrem de um qualquer distúrbio psicossocial?

A humanidade tem andado de mão dada com a violência, com os afectos do dinheiro, do poder e do engrandecimento por meio de tráficos e esquemas nublosos; temos vindo a educar os nossos num conceito de que o mais forte vinga, de que qualquer arma usada se justifica, que o respeito e a honra são conceitos obsoletos e que o que se faz entre paredes nada influencia os demais; pois nada mais errado existe que permear uma sociedade de egoísmos, de defesa por leis sem escrúpulo, do mantimento de ideias retrógradas e antissociais, pois seremos nós as vítimas de tal sustentabilização precária.
Fará sentido que o amor se torne um elo de separação em vez da maior força que permite ao ser humano evoluir, manter descendência, ser uma força catalisadora de energia e inteligência vital para o desenvolvimento deste planeta? A mim não me faz sentido, não compreendo que seres semelhantes entre si se ostracizem, se gladiem, se comprometam, se matem porque divergem nas opiniões, na religião ou fé, na cor de pele, no género de espécie…não me faz sentido que um homem ou uma mulher se creiam donos de um seu companheiro, que o destruam com palavras ou actos, que o violem física ou psicologicamente apenas por se julgarem superiores numa hierarquia fantasma que a sociedade incentiva para gáudio de espectadores ávidos de um reality show de horrores diários.

É-me imperativo continuar a acreditar que o amor entre todos não pode nunca ser doentio, abusivo, cruel ou hipnótico, pois não é amor quando dele uma mulher ou homem se faz morte.

por Nádia Prazeres

3 comentários:

  1. É urgente terminar com situações destas! É urgente existir uma mudança na sociedade, em termos de comportamento, valores...
    Beijinhos

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    1. às vezes cabe aos pais operarem essa mudança. Por um lado darem o exemplo e por outro ensinarem as filhas a que merecem o melhor e que por vezes está-se melhor só do que mal acompanhada. E aos filhos a serem mais Homens com "H" maiusculo... infelizmente ainda há muito pai "macho" que acha normal que um rapaz diga asneirada atrás de asneirada só porque é rapaz. Acha bem e normal que o filho brinque e pise nos sentimentos de uma rapariga... enfim... tudo tem de mudar logo na educação e no exemplo... depois já é tarde demais...

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  2. Obrigada Chic'Ana.
    Cabe a cada um de nós ajudar, alertar e tentar fazer melhor, educar melhor e acreditar nos bons valores.
    Beijinhos

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