17.11.16

heroínas, ou nem tanto... [imperfeições alheias]



Um simples sonho de que não me lembro pormenorizadamente mas que me fez pensar na força do indivíduo enquanto único e incomparável, pequenas visões de momentos onde me encontro sozinha tendo que dominar medos, inseguranças, cruzar mares revoltos ou simplesmente amar e ajudar os que me são próximos.
 Nesse sonho pareço desconfortável, abandonada, inquieta e até por momentos alheada da realidade que me obriga a esforços titânicos, a uma força sobrenatural, porque ser heroína é combater tudo e todos sem perder a compostura e sem sentir dor no decorrer da salvação do mundo; nesse meu sonho, de que não me lembro dos detalhes, a versão de mim é elevada ao estatuto de super mulher que tudo consegue, que tudo descobre, que tudo soluciona e que tudo transfigura sem que um cabelo se solte mesmo no meio de tempestades, terremotos ou choros desmedidos de bebés necessitados de toda a atenção.

 Desperto com a sensação de que não sou a única a questionar porque se exige às mulheres um heroísmo desmedido, forçado, solitário, hercúleo e até sobrenatural em ocasiões diárias que se repetem ao longo dos diferentes estágios de suas vidas; questiono-me quais as razões que levaram uma sociedade global, na sua génese machista, a impingir às mulheres os maiores sacrifícios em prol de satisfações alheias, bem-estares familiares ou sociais quando estas já 'carregam' o maior acto heróico: criar vida no seu útero durante nove meses e defendê-la durante a eternidade física que a saúde lhes permita alcançar. As mulheres crescem rodeadas de regras, de desejos alheios para o seu futuro, de esperanças familiares, de suposições sociais, envolvidas pelo que os outros sentem ser a sua missão e educadas com base no bem maior, não o seu.

 Não é raro, pelo contrário, ouvirmos questões comuns em todos os países, em todas as línguas faladas, serem disparadas às moças solteiras, às raparigas comprometidas, às mulheres casadas, às senhoras de meia-idade: -'então, quando é que conhecemos o namorado?', -'então, quando é que é o casamento?, -'então, para quando os filhos?, -'então, já tens netos?, e por aí adiante...
 E quando muitas de nós não desejamos ser pertença de uma maioria social, cultural, tendo como aspirações uma carreira exigente ou uma vida de liberdade amorosa ou uma sexualidade livre e diferente, quando não desejamos ser mães nem casar ou preferimos viver sem um documento estatal que aprove o nosso amor...bem, quando assim pensamos ou vivemos, tornamo-nos ao olhar dos demais umas renegadas, ingratas para com a nossa feminilidade, despidas de emoções próprias de ser mulher, seres incompletos e diminuídos.


 Talvez por isso me tenha sentido tão só no meu sonho de heroína pré fabricada por uma sociedade egoísta, individualista, que tende a ver as mulheres como extraterrestres que nascem e crescem com o propósito de tudo aguentarem, tudo fazerem, tudo adivinharem, tudo construirem em prol da sua família, dos seus companheiros, dos filhos e netos, dos outros que delas exigem a perfeição sem nunca perderem a compostura, a elegância, e ainda terem de se apresentar no seu melhor em qualquer ocasião, a qualquer momento.

 Ser heroína dá muito trabalho, exige muita concentração, uma dinâmica de robot e ninguém nos avisa que não é como nos filmes onde tudo acaba bem e nenhuma mulher chora ou se debate com crises existênciais; porque quando alguém escreve um guião diferente, realista, incómodo onde a protagonista chora, tem dúvidas, dias maus, não usa saltos altos, é dona de si, faz escolhas diferentes e ousadas, é solteira aos 40 anos, prefere uma carreira a ser mãe, discute com o parceiro, exige respeito e condições de igualdade, esse alguém é rotulado de feminista (sendo mulher) ou de homossexual (sendo homem) porque parece que só feministas e gays desencantam tais teorias ridículas e antissociais.

 Para mim ser heroína é exactamente o oposto do que se impige às mulheres, é ser única e distinta e capaz de plantar seu jardim de sonhos sem esperar que outros o façam por si à vontade deles.
 Sejamos heroínas de um desejo por nós sonhado , de uma história por nós dirigida e de uma vida apenas por nós vivida!

P.S - 'Então você planta seu próprio jardim e enfeita sua própria alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores...'

por Nádia Simão

Vem conhecer o nosso jardim aqui

1 comentário:

  1. Quanta verdade!
    E o triste é constatar que uma grande maioria das mulheres também fazem as mesmas cobranças às demais... quando sentirão certamente dificuldades semelhantes... em sempre manter uma postura aparentemente imaculada e perfeita, a todos os níveis...
    Como sempre, um texto extraordinário, que dá muito sobre o que pensar...
    Beijinhos! Continuação de uma boa semana!
    Ana

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