20.10.16

em mundos paralelos [imperfeições alheias]



Por vezes sinto-me a viver numa espécie de mundos paralelos, como na antiga série The Twilight Zone que me preenchia as tardes de adolescente nos anos 90, onde pessoas coabitam com ‘zombies’ e tudo se mistura numa estranha relação entre gerações e descendências.
É realmente curioso observar como diariamente nos cruzamos com vários tipos de espécimes, nos deparamos com vários ambientes e como a génese do ser humano se tem vindo a degradar no último milénio.
A sensibilidade está em vias de extinção, bem como a empatia e o amor pelo próximo ou até mesmo por si próprio; a generalidade das pessoas não comunica, não interage com propósito de conhecer melhor o semelhante à sua volta, não se afecta pela dor alheia e muito menos pára para olhar ao redor, entendendo que tudo tem impacto neles mesmos e não apenas nos mais desfavorecidos.

No emprego já não lidamos com gente mas com feitios, caras fechadas ou dedos apontados, e parecemos viver numa roda de vaidades e críticas onde a minoria dos simpáticos e prestáveis se torna ainda mais rara, quase sendo engolida pelos que os veem como afectados.

No seio familiar também não nos livramos de cada vez mais tempestades onde tentamos manter um barco no qual se rema para vários lados, cada qual tentando puxar a si os louros de atitudes prestadas ou acusando os demais pelas suas frustrações e incompetências; os filhos parecem desrespeitar os pais como se estes fossem só mais uns peões de um qualquer jogo de computador e entre eles também não existe muita proximidade nem diálogo afectuoso.

É óbvio, parece-me, que cada um de nós é responsável por escolhas, caminhos, palavras ditas, pensamentos praticados, atitudes diárias…
Mas se por um lado nada nos obriga a explicações por quaisquer acto ou decisão tomados também por outro não nos podemos alhear de que cada um desses actos tem influência no decorrer dos dias e impacto em quem é directa ou indirectamente receptor de tudo o que dizemos, fazemos, partilhamos.
As redes sociais têm sido talvez das maiores responsáveis, mesmo que indirectamente pois nós as criámos, por este alheamento socio-pessoal que atrai milhões de pessoas interessadas nos seus umbigos, nos seus mundos fantasiados a bem de um qualquer poder económico ou religioso ou simples narcisismo. E assim cada dia me revejo menos no que é imposto pelas sociedades como regra, fatalidade ou bem maior, e procuro minorar tais impactos nefastos, em benefício de uma vida talvez mais solitária mas bem mais digna e reconfortante na companhia dos que escolho e me escolhem em virtude de afeições e solidariedades diárias.

por Nádia Simão

2 comentários:

  1. Um texto perfeito... em toda a linha... que descreve de forma magistral os tempos actuais! E nio qual me revejo, em cada palavra...
    Uma tremenda partilha, Cris!
    Adorei! Continuação de uma boa semana!
    Ana

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    1. Que bom que gostaste, Ana :)
      A Nádia é uma grande amiga minha e escreve muito bem. Fica atenta porque ela vai andar muitas mais vezes aqui pelo blogue ;)

      Beijinhos

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