1.7.14

Este post é sobre amizade


Seguir numa vida sem amigos é talvez tão solitário como o solitário corredor de um prisioneiro para a cadeira eléctrica. Vazia do conteúdo mais informal e doce, a vida ganha um tom aborrecido e frio cheio de espinhos difíceis de contornar com uma enorme ausência de humor, com tantas mais dores e muito menos palavras.
Digam o que disserem a amizade é um sentimento de troca mesmo a mais pura e desinteressada. Hoje estou aqui para ti, amanhã posso ser eu a precisar. A cumplicidade cria-se com a troca de confissões, segredos e experiências. A solidariedade atinge o seu patamar mais elevado e não há lugar a jurisdição, a frases feitas tipo "eu avisei-te" usadas com tanta propriedade por familiares e conhecidos não saiem da boca de um amigo (mesmo que por vezes esteja a coçar-lhe a língua).
Neste país onde os valores mais nobres vão se perdendo em prol da consola, o carro topo de gama, o plasma último grito e as férias num qualquer destino de sol, quando encontramos seres aos quais podemos chamar amigos, aqueles que estão realmente disponíveis para ti, nos quais podes confiar, a quem pedes conselhos, aos quais não finges o sorriso que não te apetece dar porque sentem que algo está errado apenas pelo brilho do teu olhar. Aqueles que acreditam no teu valor e te devolvem a auto-estima num dia mais não. Quando encontramos tais figuras, o melhor é abraçá-las. Deixá-las livres mas debaixo de olho. Mantermo-nos humildes e nús para sermos também nós fáceis de alcançar. E quando os amigos tomam o lugar da família que teima em não estar, a amizade confunde-se com uma espécie de irmãdade e nessas alturas a distância física também conta porque no imediato é nas pessoas presentes que depositamos a nossa esperança em que não estaremos sós quando precisarmos de...

Na passada sexta-feira acordei com más notícias. Noticias a precisarem de soluções, acções e decisões.
Quando se tem filhos longe de "casa" a opção avós não existe. A solução "socorro, preciso que fiquem umas horas com os vossos netos" não é válida. Portanto criam-se, ou tenta-se criar, alternativas como uma creche flexível, o evitar ao máximo imprevistos do género, tentar criar laços com um vizinho (se bem que ainda não consegui interiorizar bem qual o grau de amizade que se consegue atingir com vizinhos ingleses), esperar um milagre ou, ter amigos, amigos daqueles que estão realmente lá "no matter what". Amigos que tomam o lugar de avós. Eu tenho o privilégio de ter amigos assim. Às vezes são amigos dificeis de entender nas suas acções e partilhas mas são amigos que estão lá quando é preciso e isso é o mais importante. Por vezes são eles os que mais precisam de ajuda mas acham que ao ajudar os outros a própria vida se ajustará. Eu sou tanto assim que por vezes assusto-me com o caos em que deixo a minha vida e existência para socorrer vida alheia.
Sexta foi um dia difícil e principalmente carregado de stress e angústia. Mas no fim do dia e da análise que fazemos dele descobrimos a cadeia de amizade em que estamos inseridos e isso é o bastante para percebermos que há dias assim para darmos valor a quem merece, para nos lembrar que temos amigos de verdade, para nos abrir os olhos e fazer pensar se lhes temos dado a devida atenção nesta vida tão corrida que temos que nos faz esquecer de coisas tão básicas quanto necessárias como a amizade.
A eles, aos amigos que estão lá "no matter what", em especial aos que estenderam a mão na passada sexta-feira, o meu muito obrigada por fazerem parte das nossas vida.

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