22.6.17

num sopro [imperfeições alheias]

De um sopro nascemos e num sopro morremos, no entretanto cabe a vida que nos é tão difícil de entender e tão curta para se absorver cada sonho, cada esperança, cada tristeza, cada luta, cada sorriso, cada bater do coração…

Quando recebi esta semana a notícia da morte de um amigo, com quem partilhei risos e trabalho durante 14 anos, fiquei sem qualquer palavra que expressasse a impotência de um ser humano perante a terrível natureza da morte, da doença que não se consegue combater, da dor que não sai do corpo nem da mente dos que ficam a velar o tempo que será diferente doravante.
Tentar confortar uma esposa e mãe, também ela amiga, que perde numa simples noite o seu “suporte” emocional, o seu companheiro de vida e o pai dos seus dois filhos menores, não é nem fácil nem suficiente para o vazio que chega sem aviso; nestas alturas ficamos do tamanho de uma estrela perdida na imensidão do céu escuro que é a morte, o infinito silenciar e o derradeiro suspirar após uma vida em que não se conseguiu almejar todos os sonhos nem partilhar todos os abraços.

Que jovem acredita passar por tal desespero no auge da vida, quando tem o necessário para ser feliz? Quem se imagina a sofrer com o diagnóstico de um cancro, a passar dias infindáveis por entre tratamentos agudos e a definhar por noites agitadas? Que homem ou mulher se sente capaz de enfrentar tão jovem a ideia de perda de um seu companheiro quando a vida parece caminhar para anos vindouros de arco-íris emocionais?

Eu sempre temi a morte, não sou capaz de ter uma visão singela de entender o fim e nem consigo perder o pânico de enfrentá-la, quando os meus tiverem de se despedir, quando as luzes se apagarem em partes do meu coração e quando eu mesma tiver de fazer a travessia para o nada. Porque não creio em outra vida, não corroboro as ideias de reencarnação e não entendo porque temos de ser finitos; dizem que a maturidade emocional nos concede mais calma, mais entendimento do sofrer nosso e dos demais e dizem que o tempo vai amenizando, não esquecendo, a dor da perda daqueles que nos alegram os dias, que nos ajudam a crescer e a sorrir, os que cuidamos e nos cuidam durante uma vida; dizem e eu prefiro acreditar que assim é, porque é menos doloroso, crer que um dia o nosso coração poderá sorrir de novo após percas irremediáveis, que aqueles que seguem o caminho do sono eterno nos cuidam de um sítio melhor mesmo que não saibamos qual nem nunca nos tenham mostrado.

Quando, na manhã de terça-feira, soube que menos um amigo teria a contar anedotas, a surfar nas ondas da Costa, a amar os seus, percebi mais uma vez o quanto a vida é um sopro entre o acordar e o adormecer.
 Toda esta trémula existência não pode ser em vão, não podemos miná-la com discussões infundadas, com ódios virais, com ameaças à natureza e ao nosso habitat, não devemos construir castelos de areia mas sim perpetuar afectos e construir sonhos com os que amamos e ao redor de dias felizes e noites serenas; podemos e temos de ser mais amor e menos raiva, mais ternura e menos desprezo, mais abraço e menos sofrimento, mais riso e menos choro, mais família e menos individualismo; precisamos de urgência nos momentos felizes, nos jantares entre amigos, nas caminhadas de pé descalço, na harmonia de mente e corpo, na saudade benéfica de reencontros, na música interna que nos faz bater o coração. E urge entendermos o quão belos somos, o quão efémera é a vida e o quanto perdemos de cada vez que não a sabemos estimar e nos perdemos por ninharias e coisas tolas.

Estou viva e convido-vos a viver mais, sempre melhor e num sopro de longa duração.


2 comentários:

  1. E mesmo este o meu pensamento, desde miuda que tambem sempre tive muito medo da morte, agora nao da minha mas daqueles que amo... Ja escrevi no meu blog sobre isto https://matildeferreira.co.uk/2017/03/30/nao-somos-nada/
    Nao somos mesmo nada... :(
    Bjinhosss

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  2. Obrigada pelas palavras Matilde. Li o teu post e identifiquei-me também, oxalá muitos mais assim pensassem e vivessemos tempos melhores.
    Beijinho.

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