16.3.17

a difícil tarefa de nascer Mulher [imperfeições alheias]


A semana passada celebrou-se o Dia Internacional da Mulher que é, desde 1975, comemorado pelas Nações Unidas; foi num trágico dia 08, decorria o ano de 1857, que operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve ocupando o seu local de trabalho por forma a reivindicarem a redução do horário efectuado, superior a 16 horas por dia, para um mais justo de 10 horas.
As operárias à época recebiam menos de um terço do salário dos colegas homens, uma situação de diminuição e discriminação baseada apenas na diferença de sexo e no auge da reivindicação foram fechadas na dita fábrica onde entretanto se fizera deflagrar um incêndio que originou a morte de aproximadamente 130 mulheres. Mais tarde, no início do século XX, em 1903, profissionais liberais norte-americanas decidiram criar a Women's Trade Union League, uma associação que tinha como principal objetivo ajudar as trabalhadoras a exigirem melhores condições de trabalho com apoio jurídico, social e familiar. Eram épocas difíceis e cruéis para se nascer mulher, não havendo por parte dos homens, em cargos sempre mais elevados e bem remunerados, o devido respeito ou equidade no tratamento laboral, e até familiar.

Em 1908, pouco antes da I Grande Guerra e suas convulsões políticas, sociais, demográficas e familiares, mais de 14 mil mulheres marcharam pelas ruas de Nova Iorque reivindicando o mesmo que as suas conterrâneas de 1857 e ainda o direito de voto, também negado às mulheres, sendo estas também parte de uma sociedade dita mais evoluída no início do século XX; estas lutadoras caminharam sob o slogan "Pão e Rosas", simbolizando o pão a estabilidade económica e as rosas uma melhor qualidade de vida.
Em 1910 ficou decidido numa conferência internacional de mulheres, realizada na Dinamarca em homenagem às mulheres que perderam a vida por uma causa que não deveriam ter de lutar, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher".
E ainda hoje continua a ser imprescindível lembrar todas as lutas que milhões de mulheres têm vindo a travar por direitos que jamais deveriam ser usurpados, não podendo ser aceitável tamanha discriminação social, profissional, familiar; em pleno século XXI onde já não deveriam caber tamanhas atrocidades nem pensamentos tacanhos, cada mulher trava diariamente lutas externas e internas apenas por ser do sexo feminino, sexo ainda considerado por muitos homens como o mais fraco, o mais vulnerável, sensível e perigoso.

Ao longo de demorados e conturbados tempos as mulheres têm sofrido consequências atrozes em vários domínios da sua vida pública e privada, sendo vítimas de práticas ancestrais do foro sexual como a excisão clítoriana, o casamento precoce forçado em raparigas a partir dos 12/13 anos com homens muito mais velhos que as compram para que se tornem apenas criadas e parideiras; mesmo em países europeus considerados evoluídos e modernizados, se continuam a perpectuar ideais de que as mulheres são seres inferiores e sem capacidade para efectuar diversos tipos de trabalhos ou liderar cargos de teor mais elevado, quer em cargos sociais quer em cargos políticos.
E o que mais me custa entender, enquanto mulher e filha, é que muitas das vezes sejam as mulheres as suas maiores inimigas e continuem muitas delas a educar seus filhos e filhas num enredado historial de benefício masculino com a defesa de que um homem está geneticamente mais bem apetrechado para certas situações de vida, para certos trabalhos e que lhe é destinado “divinamente” um grau de presença superior.
 Enquanto nós próprias não nos libertarmos desse estigma e não nos olharmos no espelho com a confiança e certeza de que somos seres magníficos e geradores de vidas, jamais conseguiremos derrotar estereótipos socio-económicos, libertarmo-nos de actos selvagens e conceber homens modernos, igualitários, respeitadores e conscientes de que no fim das contas homens e mulheres não são assim tão diferentes nem devem ser inimigos.

É meu desejo que um destes dias não necessitemos de celebrar tão veemente o dia da mulher mas tão somente recordar os tempos em que as lutas foram necessárias.

por Nádya Prazeres

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