16.8.16

que a maternidade não nos engula


Já passaram dois meses desde este desabafo e, se bem se lembram, eu prometi continuação. Era inevitável não continuar porque a história não acaba, de todo, com o forçoso "abandono" do emprego por parte da mãe, aí é quando a história, verdadeiramente, começa.

Uma maternidade a tempo inteiro é tudo o que esta mãe não quer mas, mais de 8 horas sem pôr a vista em cima do pequeno bebé, é algo que esta mãe nem quer imaginar. É aqui que começa a luta de uma mãe que procura uma solução para o seu problema, um trabalho flexível o suficiente para uma melhor gestão do seu tempo em função de um amor maior.

Sem cruzar os braços, procurando quase o impossível, a mãe faz uma lista de atividades que gosta de fazer e que, possivelmente, se veria a fazer a tempo inteiro um dia mais tarde. O leque de escolhas era amplo, amplo demais para se conseguir decidir por apenas uma opção. Amplo demais para deixar tempo para o mais importante, o seu rebento. Muitas foram as experiências feitas, muitas foram as tentativas, as frustrações e o desgaste emocional. 
No meio tempo, entre cursos deixados a meio, part-time de grande sacrifício intelectual, abertura de negócios e abandono de ideias inacabadas, nasceu outra criança. Menos tempo para tudo, mas a procura continuou, como se disso dependesse a sua afirmação como mulher independente que um dia foi.

Os anos passaram, a si foi chegando a certeza de não se ter entregue totalmente à maternidade e, tristemente, em prol de nada. Não viveu os seus bebés com a alma toda, exigiu sempre muito mais de si do que ser [apenas] mãe, como se essa já não fosse uma tarefa de responsabilidade suficiente, de qualificações acima da média e de entrega total [apenas] pelo vago vencimento de um sorriso ao deitar, um abraço ao acordar e um amo-te muito quando descobrem que sabem falar.

As suas crias começam agora a ganhar asas próprias e os dias desta mãe começam a ficar mais vazios. Se ela soubesse que nesta altura teria ainda todo o tempo do mundo para voltar a si, talvez tivesse abraçado a maternidade com os dois braços, talvez tivesse vivido cada segundo sem dor, sem stress, sem gritos, ou talvez fizesse tudo de novo, porque acharia sempre que, esta coisa da maternidade por si só, não a preencheria o suficiente e que, para sua sanidade mental, precisaria sempre de ocupar o seu cérebro com algo mais do que gugu dadá.

A dias desta mãe passar a ter as manhãs todas para si, faz da sua mesa da sala um escritório, implora paciência às filhas, a paciência que ela própria já não tem, e conduz o seu futuro profissional com determinação. Finalmente sabe o que quer, mais do que isso, tem certeza de onde quer chegar. Levou quase cinco anos de luta entre ideias e ideais, entre sonhos e planos, entre desilusões, quedas e recomeços. Sabe hoje que o que é para ela está guardado desde sempre e chegará quando for realmente a hora certa e não quando ela acha que precisa, quer ou procura. Hoje tenho absoluta certeza de que tudo me chegará no momento certo. Com teimosia passo por cima de dificuldades, barreiras e contrariedades e, em silêncio, vou tornando o sonho em realidade e os impossíveis em possíveis.

A mim juntam-se um punhado cheio de mulheres que a maternidade engoliu. Trocam o escritório da avenida pela mesa da sala e criam novos sonhos, refazem corajosamente as suas perspetivas profissionais, juntam aos afazeres do lar, ao criar e educar, os deveres e obrigações de um negócio próprio e reconstroem-se e, ferozmente, passam a ser [ainda mais] felizes.

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