27.8.16

problemas de consciência


Foi num dia estranho que me senti a afogar-me. Tinha sonhado justamente com isso, um pesadelo horrível que me fez questionar sobre a vida. Acordei a pensar que tinha de dar mais atenção às miúdas, por muito tempo que passe com elas parece nunca ser o suficiente, nunca ser o ideal. Nesse dia fiz tudo para as distrair, para as ver bem, para que não se sentissem aborrecidas. A meio do dia, sentia-me exausta, triste, frustrada e, ainda mais estúpido, elas não estavam melhores por isso, muito pelo contrário, discutiram mais, portaram-se pior e eu chateei-me mais, comigo e com elas. 
Foi um dia difícil de entender. O que estava eu a fazer de errado. Deixara os afazeres domésticos de lado, colocara os meus interesses à margem, desligara o computador e ignorara a agenda de trabalho. O que é que correu mal?

É preciso tempo para entender um fenómeno assim e é preciso nos pormos do lado de fora, no lado do observador. É preciso abrir a mente e acalmar os nervos, fazer uma pausa.

Tanto a L. como a C. estão habituadas a ver-me a trabalhar, ora ao computador, ora na cozinha, ora pela casa a arrumar ou a limpar, faz parte da realidade delas. Sabem que, se precisarem de alguma coisa, eu largo tudo para as ajudar ou ouvir. Sabem que, se precisarem de comer, eu paro o que estou a fazer e trato de fazer-lhes algo. Sabem que, quando discutem, eu estou lá para intervir, sabem que vou a correr afastar a aranha que está na bicicleta delas quando brincam no jardim, sabem que, embora esteja ocupada, elas são a minha prioridade e podem contar comigo.


Quando eu decido participar nas brincadeiras delas o que acontece é que elas lutam pela minha atenção e isso acaba por tornar o tempo que passamos as três, insuportável e cansativo e, no fim, nada aprazível. Foi preciso me colocar de fora para perceber que elas brincam bem sozinhas e que, o facto de eu estar "sempre" ocupada, foi mais um problema de consciência meu do que uma queixa delas.
Quando passamos tempo juntas passamos os quatro e quando não estamos os quatro elas são igualmente felizes porque se têm uma à outra.

De tão complicados que os adultos muitas vezes se tornam, a vida parece, às vezes, pior do que ela de facto é. Olho as minhas filhas do lado de fora, tiro tempo mais para as observar do que para participar, e percebo que a visão simplificada delas entenderem as coisas as faz feliz e que eu, era muito mais assim do que agora sou mas, a verdade é só uma, para quê complicar?

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