7.5.15

Querida C.


Já estiveste nos cuidados intensivos, já caiste das escadas, já caiste do cavalo, já bateste aqui e ali, já entalaste o dedo no safety gate (ironia, tem pouco de "safe"), já cortaste o dedo no papel,... ontem resolveste prender a cabeça no buraco do arranhador dos gatos.
Normalmente sou eu a pessoa fria, calma e racional, sou a que pego, acalmo, tranquilizo, curo, resolvo. Sou eu a que congela as emoções, engole as lágrimas, embrulha o coração e age com a cabeça em situações criticas. Mas ontem, ontem foi diferente.
Choravas com os olhos tristes de quem sabia que as coisas estavam mal. Que tinhas feito asneira da grossa. Choravas e suplicavas ajuda com o teu olhar meigo e expressão triste, numa suplica que diria "Mãe, tira-me isto da cabeça. Está a fazer dodoi. Por favor mãe." se soubesses falar. Foram minutos que pareceram horas. A tua irmã, corajosa como só ela, era a mais calma de nós três e foi nela que me apoiei para manter um pouco a firmeza nas mãos que não paravam de tremer. Três anos de vida e já uma vida cheia de entendimento e compreensão. Eu pedi-lhe para agarrar no arranhador enquanto te ajeitava, disse-lhe "tens de fazer muita força porque isto é pesado" e ela assim fez e graças à sua força e tranquilidade manteve o arranhador numa posição que te permitiu os olhos à vista e assim não ficares ainda mais agitada. Fomos para o chão e deitei-te no meu colo com o arranhador apoiado no chão para não te vincar ainda mais a testa. Tentei acalmar-te mas estava com o coração apertado e a voz a tremer. Dizia-te "Está tudo bem meu amor. Está tudo bem." e a tua irmã calmamente repetia "está tudo bem Clala. Já passou." Mas, não, não tinha passado nem nada estava bem mas pelo menos tu acalmaste-te e paraste de chorar. Vi que depositaste a tua confiança em mim como quem diz "eu sei que tu consegues resolver isto mãe. Confio em ti", mas eu não sabia se conseguia.
Resolvi que talvez fosse melhor chamar ajuda porque não conseguia pegar em ti e ao mesmo tempo no arranhador para o tentar soltar da tua cabeça sem te magoar. Onde está o telemóvel quando precisamos dele? Disse à tua irmã "Laura, a mãe precisa da tua ajuda. Vai à sala e procura o telemóvel da mãe e traz à mãe" "Ok mãe" e ela lá foi, não levou um minuto a voltar com ele na mão. Obrigada minha querida Pituca, és uma traquina mas uma mulherzinha sempre que é preciso.
Pedi ajuda a uma amiga que mora perto. Só pelo facto de ter pedido ajuda já me senti mais calma e menos só. Comecei então a agir como de costume, racionalmente, com segurança e de forma prática analisei o problema. Percebi que se rodasse o arranhador provávelmente soltaria a tua cabecinha sem danos de maior. Foi o que fiz... com sucesso. Agarrei-te nos braços e segredei-te que agora sim, estava tudo bem. Analisei a tua cabeça mas só tinha a testa vincada. Respirei, finalmente. Cheia de orgulho da tua irmã e alivio por ti. Que mais me vais aprontar minha pequena budinha traquina. 

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