PODES CONTINUAR A SEGUIR-ME AQUI!
Até já!
www.crisloureiroblogs.com
Mostrar mensagens com a etiqueta BE SOCIAL. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta BE SOCIAL. Mostrar todas as mensagens

26.10.17

catcalling [imperfeições alheias]

Catcalling happens to most women between the ages of 11 and 17.
The largest study of its kind has shown that 84 per cent of women, across 22 countries, are experiencing street harassment before the age of 17 - and that figure is even higher in Britain, about 90 per cent of women under aged.” (in The Telegraph, May 2015)

Ser mulher não é fácil num mundo onde ainda hoje, em pleno século XXI, a maioria das sociedades são patriarcais, machistas, regadas por ideias ancestrais e religiosas de que a mulher é inferior ao seu par masculino e lhe deve obediência, respeito e vassalagem. Ser mulher não é simples em nenhum país, mesmo no continente europeu dito mais civilizado, não é tarefa fácil viver rodeada de estereótipos sociais e económicos que julgam o sexo feminino frágil, emotivo, bipolar, dado a histerismos e ainda por cima pouco fiável em cargos de chefia ( a tal “coisa” da maternidade que as ausenta do laboral intento).
E ser mulher jovem é ainda mais complexo quando os ditos protectores são os agressores, os que diminuem a importância extrema de uma adolescência confortável, segura, genuína e sem influências nefastas de uma sociedade cada dia mais egoísta, violenta e xenófoba.

Hoje falo-vos de um fenómeno crescente nas sociedades, nas grandes metrópoles europeias e americanas, onde o assédio sexual verbal é constante e causa em muitas mulheres não só desconforto como inclusive problemas psicológicos e de autoestima. Relembrem-se de todas as vezes que passeavam na rua, seguiam de metro ou autocarro, estavam num café sozinhas ou num banco de jardim e um qualquer idiota vos interrompia o pensamento com palavras impróprias, “elogios” sexuais ao vosso corpo, rosto ou maneira de andar, lembrem-se de alguns serem ainda mais abusados e apalparem-vos ou seguirem-vos alguns metros a sussurrar propostas indecentes ou pedirem-vos um contacto, e tudo com o ar mais natural de quem acha que apenas está a elogiar uma cara bonita…(é o que muitos pensam!)
O fenómeno internacional conhecido pela expressão catcalling não é recente mas nos últimos dois anos tem sido mais discutido no seio das políticas internas dos países mais afectados por este tipo de assédio sexual às mulheres, as organizações dos direitos humanos e ONG de apoio e proteção à Mulher têm denunciado inúmeros casos e o que este tipo de atitudes pode causar no desenvolver saudável da feminilidade. É urgente que os governos alterem leis e que se comece a relacionar este tipo de assédio com o que é já punido por lei no seio do mundo laboral.
Andar na rua, usar transportes públicos, disfrutar de parques para caminhar, conviver numa esplanada, visitar museus, sorrir em público, caminhar alegre ou de rosto velado não pode nem deve ser motivo para ouvir impropérios de homens que se julgam no direito de tentar a sorte de ter sexo com uma rapariga/mulher, porque o acto de catcalling não é mais que a tentativa velada de ter um encontro sexual imediato.

Here's something that shouldn't be a secret: guys catcall because they think it will somehow lead to them having sex. I've never once seen it be successful, but guys keep doing it, and that's the reason. But that's what's really going on, and the guys doing it don't care if it's disrespectful.
Of course it's disrespectful! Many girls complain about it yet it keeps happening. If it was meant respectfully, then as soon as women started talking about how it made them uncomfortable, it would've stopped.” (by Michael Hollan, Blogger, in Your Tango Jan.2017)

Mas para além dos homens continuarem a achar normais os ditos “piropos”, de os fazerem descaradamente e sem respeito e insidirem os mesmos em raparigas jovens, muito mais que em mulheres a partir dos 30 anos, o problema ultrapassa a questão dos géneros e reflecte-se em sociedades inteiras que não protegem o sexo feminino, que não ensinam nas escolas o respeito mútuo, que continuam a premiar os homens com cargos de superioridade hierárquica, que instigam ao banalizar de situações desconfortáveis e recorrentes sobre as mulheres. E é ainda mais incompreensível quando lemos nas redes sociais, nas colunas de opinião, em blogs, as opiniões de mulheres a favor dos catcallers; quando a jovem americana Shoshana Roberts publicou no Youtube um vídeo onde é assediada 108 vezes durante um percurso de 10 horas pelas ruas de Nova Iorque, o que mais me impressionou foram os comentários femininos sobre a roupa usada por ela (umas simples calças pretas e t-shirt preta), que ela já devia estar à espera dos ditos “piropos”, que deveria até sentir-se elogiada, que não é nada de especial ir na rua a ouvir desconhecidos proferir uma enxurrada de palavras de cariz sexual, pornográfico, desconfortável e sem lhe ser pedida qualquer opinião.

Sabemos que os homens são educados também por mulheres e estas deveriam ser as primeiras figuras a impor a necessidade de seus filhos respeitarem o sexo feminino, a serem cavalheiros, a saberem partilhar tarefas laborais e familiares, a terem consciência de que homem e mulher são mais parecidos que diferentes e ambos devem ser equitativamente merecedores das mesma oportunidades.
Já não estamos perante apenas questões de justiça salarial, de oportunidades de carreira iguais, de obter cargos de chefias por merecimento e não por género sexual, de não serem necessárias quotas, de se sexualizar a mulher na publicidade; estamos numa era em que é cada dia mais importante ensinar de raiz os valores de igualdade, de fraternidade, de amor, de respeito, de partilha, de dar às mulheres os devidos direitos enquanto cidadãs de sociedades pluralistas e avançadas, de transmitir a filhos e netos o valor humano e não o valor de se ser homem ou mulher ou nem homem nem mulher (outra questão para futuro debate).

O fenómeno do assédio sexual verbal não é recente, foi sendo tratado com leveza e como “coisa” própria de ser homem e pensar em sexo, foi-se relevando e as mulheres foram guardando para si o desconforto; mas nos últimos anos o fenómeno tem crescido, tem sido discutido nas redes sociais, tem sido objecto de queixas por parte de adolescentes e mulheres que já não têm sobre si o espectro de ter de “comer e calar”. E é preocupante perceber que este assédio se intensifica em países desenvolvidos, onde há mais abertura política e social para combater o machismo, a violência doméstica, a agressividade perante a mulher e onde a religião não é aparentemente tão restritiva e fanatizada, é inquietante perceber que a maioria dos catcallers se centram em adolescentes que pelo teor da idade “complicada” já se encontram mais vulneráveis a sentirem-se desajudadas, desajustadas, expostas, a sofrerem de problemas de autoestima fraca e a não verbalizarem os seus temores e as suas estórias de assédio.
 É fácil escolher vítimas mais permeáveis e do catcalling à pedofilia e ao tráfico sexual vai um passo mais pequeno do que se possa pensar. Urge que todos saibamos destes fenómenos, que usemos todas as maneiras de os enfrentar e dissuadir, que sejamos protectores e não predadores, que exijamos leis adequadas e postas em prática, que ensinemos aos nossos homens que só com igualdade e respeito entre sexos se deve fundar uma sociedade, um mundo melhor.

Ser-se mulher não pode significar ser-se alvo indiscriminado de ideias deturpadas, de comportamentos impróprios, de violação de direitos básicos, de premissas ditadas por uma qualquer religião ou partido político; ser-se mulher deve significar apenas ser-se humano e respeitado como tal.


12.10.17

ansiedade social [imperfeições alheias]

“A ansiedade social ocorre frequentemente lá atrás na infância como uma parte normal do desenvolvimento social e passa despercebida até a idade adulta.
As causas e frequência da ansiedade social variam consideravelmente, dependendo de cada pessoa.
A maioria de nós pode sentir um certo nervosismo em determinadas situações sociais, como fazer uma apresentação, sair para um encontro, ou participar de uma competição. Isso é normal e na maioria dos casos não é transtorno da ansiedade social.
O transtorno da ansiedade social é quando as interações sociais do dia a dia causam medo excessivo, autoconsciência e vergonha.
Coisas simples como comer em lugares públicos ou interagir com estranhos podem se tornar desafios consideráveis para uma pessoa que sofre de transtorno da ansiedade social.”
(em www.ansiedadepanico.com)


Por vezes necessitamos abrandar, respirar fundo três vezes e verificar o que nos deixa instáveis, cansados, desmotivados. A ansiedade é um dos diagnósticos que mais pode demorar a percepcionar sem assistência médica pois achamos que andamos apenas mais stressados que o costume ou que são pequenas fases mais atribuladas e vamos engolindo os problemas.
A questão fulcral é que mais de metade da população sofre ou virá a sofrer de ansiedade, de depressão crónica, de fobias cada vez mais irracionais e incapacitantes; a humanidade não se tem adaptado eficazmente para a crescente multiplicação de tarefas, para o crescimento desenfreado de empregos esgotantes, para a descaracterização do bem estar dos povos, para as mudanças climáticas e consequentes doenças novas…

Parece contraditório que se ganhe mais hoje, na generalidade, que se tenha melhores condições de habitação, melhores veículos de transporte, mais modernidade, mais benefícios mas que andemos mais doentes, mais desiludidos, mais amorfos e muito menos solidários; há um egoísmo que cresce à velocidade da luz, uma soberba de minorias que continuam a encurralar os desfavorecidos, os que trabalham por conta de outrem, os desfavorecidos física e intelectualmente, os agredidos pela sociedade apenas por nascerem em determinado país ou de determinado género. Terrivelmente vai uma sociedade quando os valores de paz, solidariedade, beneficência, amor são renegados e onde imperam o capitalismo, a soberba, a ganância, o desrespeito, o ódio, a ditadura de valores, escolhas ou pensamento; quando quase todos nos tornamos cordeiros que seguem cegamente crenças políticas, religiosas ou ideológicas, o mundo perde a essência do que se obteve com a evolução do homem que gerou vida atrás de vida, descobriu a ciência, a medicina, evoluiu na psicologia, na sociologia, lutou por ideais, transformou magia em realidade…

Toda esta diferença de comportamentos gera indivíduos cada dia mais ansiosos, agressivos, dissociados da realidade, gera uma população cada vez mais absorvida nos empregos esgotantes, nas escolhas frustradas, em casamentos incompatíveis, em solidões duradouras e gera gaps profundas entre pais, filhos e avós numa roda viva de experiências cada vez mais insatisfatórias e descartáveis.

Mas, retomando o tópico da ansiedade, há quem conviva durante anos com este mal-estar que é provocado maioritariamente por uma baixa auto-estima e dificuldade em se aceitar e valorizar perante os demais; estas pessoas têm dificuldade em socializar no meio de multidões, de pessoas com interesses díspares, são indivíduos sossegados e tímidos que não gostam dos holofotes do protagonismo mesmo que, entre os seus, ajam com naturalidade e à-vontade; a ansiedade provém de um crescimento mais solitário embora o afecto familiar esteja presente, pois a ansiedade não é geralmente associada a pessoas com historial afectivo negativo. A pessoa que sofre de ansiedade nervosa é funcional, não carrega os mesmos sinais de um depressivo crónico, e geralmente consegue obter resultados satisfatórios apenas com ajuda de psicoterapia e exercícios que elevem a auto-estima e geram reforço das qualidades inatas que estão apenas bloqueadas pelo cérebro ansioso. Não é fácil conviver rodeado por receios de falhanços consecutivos, ter a sensação de que todos nos observam e comentam qualquer falha, qualquer silêncio mal interpretado, não é saudável impor ao organismo as descargas de stress diário sempre que uma crise de pânico ou de choro surge sem causa aparente.
Por vezes são precisos vários anos para se entender que a questão principal não é a timidez, não é a preferência por estar sozinho no seu canto, não é a personalidade mais introvertida que desarma o cérebro e o faz rodopiar por um mar de dúvidas, de medos, de inaptidões sociais, de frustrações que mitigam os dias e castigam o futuro de quem se vê sobressaltado por fantasmas criados no cerne da inteligência, no centro do coração; o ser humano ansioso demora a amar-se, a desprender-se dos “e se…”, dos “mas porque é que eu não…” , custa-lhe respirar quando tudo parece falhar à sua volta, encolhe-se perante sonhos mais ousados e quase sempre se culpa pelas suas falhas e pelas falhas dos outros para consigo, a ansiedade rouba a paz de quem se coloca sempre em segundo plano e se crê inferior à imagem que os outros têm; uma das lutas de quem sofre de ansiedade é entender que o importante não é o que os outros possam pensar de si, que o mundo não está focado nas suas falhas e nas suas quedas e que o seu valor só depende dele mesmo; o ansioso perde-se na imagem que cria do que os outros possam pensar, ou seja, para aquele que anseia demais quase todos lhe parecem existir de dedo em riste à espera que caia, falhe ou seja incapaz de atingir um propósito.

A ansiedade pode ser esgotante, retira ao indivíduo as suas capacidades máximas de se impor perante as suas escolhas, os seus desejos, de sonhar alto e concretizar o que lhe faz feliz e não o que faz bem aos outros; o ansioso vive mais para os outros que para si, é-lhe difícil dizer não ou respeitar-se quando de si abusam, acaba numa roda de culpa por não ser capaz de se impor quando muitos se aproveitam da sua bondade, do seu coração sensível.

Em muitos casos de ansiedade há por detrás um indivíduo inteligente, criativo, bondoso, crente no lado bom da humanidade, sensível, honesto, pacificador, teimoso para com a vida e extremamente intuitivo mas que, por razões por vezes desconhecidas à primeira “vista”, se encolhe perante o espelho e se diminui perante as constantes mudanças sociais e situações onde não consegue encaixar-se; um ansioso tem dificuldade em entender porque se distanciam cada vez mais as pessoas, não lhe é fácil conviver com a arrogância e o desprezo, não se dá bem com as modas do crescente individualismo cego, não se consegue rever nos quotidianos onde a maioria se atropela, não comunica, não é solidário, agride com facilidade, desentende a diferença e critica o que foge aos ditos parâmetros globalizados.

Não quero contudo que se entenda que a “culpa” de alguém ser ansioso é da sociedade mas é de facto a sociedade que na sua dificuldade de entrosamento pode dificultar a vivência de quem ama demais, sente demais, expia demais os pecados e se despedaça na incapacidade de ser apenas mais um autómato social; talvez a ansiedade incapacite até ser curada mas dentro de um ansioso há um coração sincero que apenas gostava de conseguir colorir o mundo!
  

14.9.17

o poder do livro [imperfeições alheias]

Os livros lembram-me os unicórnios do universo mágico das estórias sobre princesas, sonhos, aventuras e finais felizes...ou nem sempre.
Desde pequena que convivi com livros e fui aprendendo através de milhares de palavras como crescer pode e deve ser uma sucessão de eventos libertadores, de sonhos concretizáveis, de amizades duradouras, de aventuras solidárias e até de alguns tropeções necessários à aprendizagem que é viver.
Um livro tem um poder inigualável que nenhum computador ou jogo de vídeo pode substituir como actualmente se tem vindo a tornar hábito entre os mais jovens. As gerações nascidas pós sec.XXI têm sido destituídas da magia que é folhear livros, e não falo de manuais escolares ou livros técnicos mas de livros que ensinam a ser-se humano, que obrigam a reflectir, a questionar, a indagar os porquês que a vida vai colocando.
Em miuda cresci ao sabor de aventuras intrépidas onde raparigas se tornavam donas do seu nariz, onde animais falavam e travavam amizade com seus amigos humanos, onde as amizades eram leais e as florestas ganhavam vida; cresci a aprender truques de magia e a aperfeiçoar a bondade no coração, aprendi também a ter cuidados quando os maus espreitam e a perceber que a perfeição não existe mas cada um de nós pode evoluir por caminhos coloridos onde todos merecem redenção.
Lembro-me de ter amigos imaginários, de juntar os meus peluches e dar-lhes aulas como se me entendessem e passar momentos feliz com tanto sonho a formar-se na mente. Porque hoje creio que a maioria das crianças não sabe ouvir a sua voz interior, não conhece a magia das folhas escritas há séculos por homens e mulheres que ousaram sonhar e construir mundos em palavras sem igual.
Estamos numa era onde a tecnologia vem matando as letras, onde o progresso tem atropelado o sonho e onde o homem se distancia das suas raizes ancestrais e tem medo de sonhar, de imaginar, de criar um mundo novamente seguro, cheio de cor e amizade, um universo mais amável e capaz de união entre povos. É mais facil não ler do que pensar fora da zona de conforto, é mais simples comprar um jogo ou um telemóvel do que responder a perguntas dos filhos leitores que de repente se veêm a questionar escolhas, caminhos, valores...
Por que acham que a política e a religião não gostam de livros e os queimaram durante séculos obscuros? Por que creem que as mulheres eram aconselhadas a bordar e não deveriam interessar-se pelas palavras? As sociedades sempre souberam o poder que alberga um livro, aqueles que o escrevem e os demais que o lêem e por isso sempre quiseram silenciar esse poder: o poder de sonhar e transformar o mundo.
E hoje, mais que nunca, precisamos voltar a sonhar e a escrever, a comprar e oferecer livros, a aumentar os desejos de construir um mundo melhor e darmos às crianças o papel fundamental.


8.9.17

[quase] verde ♥ sabonete líquido para mãos

As notícias não têm sido animadoras, a Terra geme, grita e retalia todas as maldades que lhe, que nos, vamos fazendo. Tornados, sismos, tsunamis, sempre houveram, é bem verdade, mas também é verdade que as proporções e a constância tem-se agravado. Os glaciares vão derretendo e a nós preocupa-nos onde iremos viver quando a actual costa for substituída por mar. Somos de uma ingenuidade, de um egoísmo e de uma soberba atroz e vamos continuando a preocupar-nos essencialmente com o próprio umbigo. Em várias torneiras já se bebe (micro) plástico, na minha não creio porque ainda há alguns meses vieram testar a água e não me admirava nada que fosse esse o objetivo da pesquisa. Não me sinto privilegiada por isto até porque provavelmente não bebo plástico mas como-o nas alfaces regadas por ele ou nos peixes apanhados no mar. O plástico já faz hoje parte da cadeia alimentar, mesmo ao lado do sol.

Cá em casa, neste país Inglaterra, é uma tarefa estoica conseguir fugir ao plástico, é quase ter de criar todo um novo conceito de vida existencial. É um consumo de tempo, recursos e desgaste emocional. É frustrante e pouco motivador. Eu optei pela minha sanidade mental, não sou heroína e nem tenho qualquer pretensão de o ser. Porém sou consciente e quero que isto dure, pelo menos até as minhas filhas ficarem bem velhinhas, sim também tenho umbigo. 
Para levar a cabo uma transformação de qualquer natureza tem de haver uma motivação. Eu tenho três, elas e o mar, porque não adiante andar para aí a dizer o quanto o mar é importante para mim e puxar o autoclismo de detergentes logo a seguir.

Esta foi a minha primeira mudança. Alterar a espuma que vai na água cá de casa. Ainda não o consegui a 100% mas falta muito pouco tendo em conta que há sempre avanços e recuos, nem sempre as coisas que resultam para os outros resultam também para mim. Nesta pequena/grande luta temos de nos recriar e de voltar um bocadinho atrás na história.

Aqui falei de como deixei de comprar detergente da roupa, já devo ter poupado umas 40 libras nestes últimos 3 a 4 meses. Mais ou menos na mesma altura passámos a usar apenas sabonetes amigos do o ambiente nos banhos cá de casa, amigos do ambiente e das filhas que não se queixaram mais de ardores. Como para elas é mais fácil e motivador lavar as mãos com sabonete líquido, não passou muito tempo até fazer um sabonete líquido cá para casa. Muito simples, peguei no processo usado na receita do detergente da roupa e, do sabonete sólido fiz líquido.


Receita sabonete líquido para as mãos:

♥ 30gr sabonete natural à escolha (usei sabonete de azeite)
♥ água destilada ou previamente fervida
♥ óleos essenciais à escolha (opcional)
Ralar o sabonete e colocá-lo numa panela  com 1/4 litro de água. Ligar o lume e mexer constantemente até dissolver o sabonete na água. Deixar arrefecer e colocar no recipiente a usar como doseador. Juntar os óleos se pretender (eu usei 6 gotas de menta, 4 de limão e 4 de alfazema). Agitar lentamente para misturar. Deixar repousar por 24 horas para engrossar.
Passadas as 24 horas abanar bem e usar normalmente.

31.8.17

de hollywood para a realidade [imperfeições alheias]

O lado negro do glamour hollywoodesco está gravado permanentemente no corpo, na mente e nas vidas de milhares de vítimas femininas, na maioria, e masculinas; são vítimas anónimas, vítimas que se tornaram "estrelas" e vítimas silenciosas que sofrem desde tenra idade os efeitos nefastos de abusos sexuais e psicológicos. 

 Uma rede contínua com tentáculos que se agarram a diversos meios sociais, desde o cinema à política, da banca ao tribunal e por aí em diante; em quase todos os sectores da vida magnata de milhares de homens norte-americanos se encontram vestígios desta rede gigantesca onde prolifera a pedofilia, a violência física e psicológica, a pornografia infantil e juvenil, o sadismo de mentes perturbadas ou simplesmente más, as psicopatias que o dinheiro permita satisfazer.
Crianças desde idades pré-escolares são vendidas, emprestadas, usadas e abusadas ao bel-prazer de mentes doentias, sem escrúpulos e muito dinheiro para satisfazer pensamentos tortuosos e denegrir vidas que só com anos de terapia e ajuda conseguem uma mínima paz para não sucumbir ao suicídio ou até homicídio; muitas crianças não sobrevivem, algumas nunca se salvam e as restantes que conseguem sair ficam marcadas para sempre.

Com os crescentes holofotes sobre o tráfico humano e sexual, com a cumplicidade de organizações governamentais e ONG’s e com as redes sociais desempenhando um papel vital de “livros abertos”, vem sido mais audível a voz de centenas de mulheres conhecidas e anónimas que ganham coragem para denunciar abusos, abusadores e redes operando como polvos no mar da moral corrupta e sociopata que se alastra pelos mais diversos recantos do mundo. Já não é uma questão de famílias pobres que vendem as filhas com o intuito, mesmo que errado, de lhes proporcionarem um melhor futuro nem uma mancha nos países de leste onde as mafias há décadas se servem da sua influência para imprimirem medo e aliciarem jovens com promessas de uma vida glamorosa por entre desfiles de moda ou carreiras de actrizes bem sucedidas em Hollywood.

Actualmente o dinheiro compra tudo, e digo tudo porque mesmo quem não se deixaria comprar em circunstâncias de plena liberdade acaba por sê-lo forçadamente e sem maneira de ripostar tal facto; são inúmeras as crianças a partir dos 4 anos que décadas antes de se tornarem “famosas” nos meios cinematográficos, jornalísticos, teatrais e outros se viram arrastadas para mundos obscuros, tortuosos, viciados, psicóticos, diabólicos onde homens as compraram para seu bel uso e prazer, as violaram da mais hedionda forma de desumanização, as torturaram para satisfação de fantasias distorcidas e as deixaram “rodar de mão em mão” até não se sentirem mais humanas, dignas e em casos extremos até falecerem.
Os meandros hollywoodescos nada têm de glamoroso e estão fundados em redes secretas onde qualquer vício é facilmente suportado pelo dinheiro, pela influência política, pelo lobby socio-económico, pelo silêncio da maioria das vítimas, pela cumplicidade dos que observam e nada denunciam…
Cada dia mais mulheres têm conseguido contar suas estórias, têm vindo a expor a ferida aberta e a derrubar seus próprios fantasmas de quando um dia lhes roubaram a inocência, a virtude e até o orgulho em ser mulher. Variadas associações de apoio a vítimas de crimes e ofensas sexuais têm conseguido expor parte desta rede mundial e têm sido feitas pressões governamentais para que os monstros saiam da escuridão e sejam caçados.

 Quando leio relatos verídicos de mulheres que aos 5 ou 6 anos se viram envolvidas no submundo do sexo brutalmente distorcido, sendo tratadas como pedaços de carne para abate após seu desgaste, sendo enjauladas como animais de circo para cederem à liberdade individual, para perderem qualquer vestígio de dignidade pessoal, sendo passadas entre homens violentos que as insultam e torturam física e psicologicamente, sendo mortas depois de já não terem "uso"… quando leio todas estas estórias meu peito aperta-se e questiona: “como é possível a mente humana alojar tal maleficência e quebrar toda e qualquer barreira que separa a racionalidade da irracionalidade dita animal?”
E questiono-me como tantas destas mulheres conseguiram reerguer-se após o inferno ser a única visão de vida durante longos anos, como se tornaram heroínas ao conseguirem colar cada pedaço seu e não desistirem da luta contra a ira dos homens que as sonegaram à felicidade e as mutilaram permanentemente.

Toda e qualquer destas mulheres que agora se fazem voz das que ainda são silenciadas merecem um amplo aplauso e merecem que a justiça acorde e que cada um de nós faça tudo aquilo que possa para mudar o mundo, mesmo que passo a passo, minuto a minuto, ano a ano.
O que cada mulher e homem de bem possa fazer, falar, denunciar é um passo gigante na compreensão de que o mundo pode e deve ser um lugar melhor e sem medos.


3.8.17

a escolha de não ser mãe [imprefeições alheias]

Hoje venho-vos falar sobre um tema que causa polémica na sociedade, que produz ideias contrastantes e gera muitas vezes opiniões extremadas de ambas as partes que vivem ou não a maternidade.

Vem de longe, desde que o homem evoluiu para uma espécie inteligente e reprodutora, a tão generalizada e enraizada ideia de que a mulher evoluiu para ser mãe e fortalecer a espécie com o contributo da doação de vidas; e é óbvio que sendo apenas a mulher a conceber vida para que a espécie humana continue a sua reprodução e evolução seria desastroso para a nossa sobrevivência se todas as mulheres vivas se negassem a engravidar e gerar homens e mulheres.
Mas a questão que me leva hoje a escrever sobre a maternidade é sobre crença, empatia e até mesmo altruísmo por parte das mulheres que decidem de plena consciência não serem mães, quer biológicas quer adoptivas, tendo de antemão uma legião de vozes contra tal decisão. A maioria de vocês que me lerão serão provavelmente mães, mulheres que escolheram ser mãe por desejo e por convicção, por vontade de deixar no mundo o vosso legado e sentirem-se preenchidas e nutridas por tal "profissão" eterna; e por isso é de extrema importância que entendam estas minhas palavras como parte de uma opinião pessoal sem qualquer tentativa de julgar ou reclamar qual das opções está certa ou errada.

É meu intuito apenas que haja compreensão mútua entre mulheres que são mães e mulheres que não são mães, uma difícil tarefa nas sociedades que se têm degladiado numa demanda em criar uma espécie de céu e inferno da "bíblia maternal"; como se a perfeição estivesse do lado das geradoras de vida e a imperfeição naquelas que "recusam" o dom de dar à luz uma criança. A mim faz-me alguma impressão quando se diz a uma mulher que não quer ser mãe que esta morrerá incompleta, que está a renegar a maravilha da maternidade, que não será esposa dedicada, e outros aforismos do género (muitos deles embebidos em crenças religiosas que deturpam a imagem feminina).
Eu confesso que não sou mãe, nunca senti aquele dito desejo maternal, que não me embeveço na presença de bebés, que estou longe do esterótipo de esposa dedicada e mãe de filhos atenta e extremosa; não entendam como não gostando de crianças, gosto da gargalhada pura de um bebé e divirto-me com os sorrisos de crianças e sua ingenuidade mas não numa vertente permanente 24 sobre 24 horas em que o "papel" de mãe recaia sobre mim.

Acredito que uma mulher não toma a decisão de não progenitorizar de ânimo leve, e não falo aqui dos casos das que não podem ser mães por motivos biológicos, pois é também esta uma decisão para a vida que terá consequências igualmente "eternas"; e acredito que quem decide não ser mãe deve ser respeitada pelas suas iguais sem que constantemente passe por escrutínios de familiares, amigos, vizinhos, que se acham no direito de tecer duras críticas à sua escolha.
Por diversas vezes assisti a conversas em que mulheres reivindicavam a maternidade como algo sagrado, como uma escolha que deveria ser inquestionável e uma espécie de burka a ter que ser usada por todo o género feminino; senti olhares de reprovação ao relatar a minha escolha e fui confrontada com a ideia de que estarei a cometer um grave erro, até mesmo a ser ingrata com o meu útero que foi "criado" para gerar vida, quase como se roubasse esse direito às mulheres que não podem ser mães.
Mas sejamos honestas, deixemos questões de cariz religioso no lugar devido, façamos uma análise puramente científica e biológica: seria possível a cada mulher que decide não gerar uma criança dar a cura para cada uma que não o pode fazer por deficiência biológica? A resposta todas sabemos é não, se eu opto por não ser mãe isso não faz com que por artes mágicas uma mulher algures de repente o possa ser, logo eu não devo ser responsabilizada por estar a "deitar fora" o meu dom de poder gerar vida.

Como vos disse no início deste meu pequeno contributo, o tema da maternidade é sensível e gera há séculos discórdia entre mulheres e é essa dicotomia que me gera alguma incompreensão na união entre o sexo feminino; porque seriamos mais fortes se nos entendêssemos mutuamente, se aceitássemos as escolhas de cada uma sem questionar os motivos e apontar dedos acusatórios, se compreendessemos que até a maternidade deve ser uma escolha pessoal sem influência de outros.
Decidir não ser mãe deve ser tão válido como desejar sê-lo e essa escolha não deve tornar-se num pêndulo crucificatório sobre a cabeça de quem por motivos pessoais ou de outra génese a faz. Querer tornar uma mulher que opta por não gerar vida e também não adopta numa espécie de pária social é inocrrecto, é indevido e é muitas vezs injusto, ninguém sabe os porquês de tal decisão e até mesmo as circunstâncias de vida que levam uma mulher optar por não ser mãe biológica ou adoptiva.

A minha decisão por exemplo teve vários factores, desde questões que se prendem com pouca certeza de vir a ser uma boa mãe (com capacidade para educar, alimentar, compreender, escutar, criar e afins) até factores temporais e sentimentais. Porque por vezes há mulheres que até pretendem inicialmente ser mãe mas vão adiando a gravidez por motivos profissionais, familiares, emocionais, etc, e quando se dão conta a idade já não acolhe tal ideia e a vontade acaba por diluir-se; e também há as que demoram a encontrar um parceiro com quem sintam realmente que ser mãe faz sentido, que não querem fazer por pressão ou acabar com um bebé de pai ausente e nada responsável e por isso acabam por centrar a felicidade noutros aspectos.
E depois há o meu caso, que será possivelmente o de tantas outras mulheres, em que a decisão se prendeu maioritariamente com um sentido altruísta de não dar vida a uma criança apenas com o intuito de "agarrar" um homem, de dar um neto aos meus pais (de filha única, sem hipótese de serem avós de outro progenitor) para os ver mais felizes ou de fazer aquilo que é esperado a uma jovem em idade casadoira e fértil.
E quando digo altruísta é porque entendo convictamente que ser mãe não é dar à luz e é o oposto de querer ter um filho, aliás li há pouco um artigo muito bem escrito de um psicólogo que punha o dedo na ferida questionando as mulheres o seguinte: - querem ser mães ou terem um filho? - e a diferença, creiam, é abismal porque qualquer mulher está apta a ter um filho (salvo as tais excepções impeditivas do foro físico) mas nem toda o está a ser mãe.

Eu entendi que poderia ter um filho mas não ser mãe e tomar a decisão difícil de não ser é para mim altruísta no sentido de preservar uma criança que nasceria e não seria porventura envolvida no acto gigante da maternidade tal como deveria ser; poupar um ser humano a crescer no seio de dúvidas, de incertezas, de incapacidades alheias é deixar o mundo um pouco menos cheio de tantos homens e mulheres nascidos e criados por mulheres em permanente questionamento se estes deveriam ou não ter nascido e se elas não seriam mais felizes sem eles.

Termino dizendo que a única coisa de que tenho a certeza é que se fosse mãe amaria incondicionalmente a minha filha (e digo filha porque sempre acreditei que se viesse afinal a ser mãe teria uma filha saída do meu ventre), mas ser mãe não é também apenas amar o ser que geramos pese esse ser o mais importante sentimento no seio da maternidade.

Ás mães que me lerem, o meu apoio pela decisão de o serem; ás não mães, o meu mesmo apoio pela decisão de não o terem sido.


20.7.17

+ que mera sobrevivência [imperfeições alheias]

Não é fácil contornar as notícias diárias que a televisão teima em mostrar sempre pelo lado negro, ouvir mais uma catástrofe, mais um acidente, mais pessoas morrendo de fome, mais um teatro de guerra destruído e mais floresta ardida, gente sem casa e outros cenários de sangue e maldição.
Não é tarefa rápida nem segura conseguir abstrair nossa mente de tanta falha humana, de tanto choro do planeta terra que se insurge contra as agressões que se acumulam na biosfera; e não é seguramente difícil deixarmo-nos desiludir, perdermos o rumo, desistirmos de ser feliz em todas as ocasiões.

Mas o que necessitamos de entender a cada hora que passa, a cada cabelo que embranquece, a cada ruga que surge, a cada pedaço de pele que envelhece é que a vida não espera pela altura em que estejamos preparados para a verdadeira mudança; a vida empurra-nos para caminhos encruzilhados com o propósito de nos abanar, de nos fazer pensar no melhor passo a dar para a descoberta mágica da simplicidade das coisas. Não é viver que é difícil mas sim dedicar-lhe alma e coração, todos sabemos sobreviver aos dias respirando e alimentando o corpo mas poucos sabem transformar tal energia em pedaços de céu estrelado e vestir o corpo de bondade, de festa.
A vida é uma passagem, uma ponte que atravessamos em direcção ao desconhecido e que tem quilómetros contados embora não os possamos visualizar; esta incógnita que pendula sobre nossas cabeças deveria ser o mote bastante para não nos aterrorizarmos com o mal, para nos mantermos sãos e em uníssono com a natureza que nos criou, para não destruirmos a casa que decidiu albergar-nos sem pedir em troca mais que cuidado e compaixão.

O acto de viver com tempo contado teria de ser a arma utilizada na construção de sonhos, na fraternidade entre povos, na compreensão de ideais diferentes; seríamos eficazes como estandarte de uma inteligência posta apenas ao serviço do sorriso, da liberdade, se não deixássemos nosso cérebro ser domado pela sede de poder materialista. Ao longo de séculos os homens corroeram-se, destituíram-se da racionalidade que os deveria distinguir dos outros animais, aprisionaram-se, maldisseram seus antecessores, destruíram ideais e dizimaram-se em troca de territórios, de dinheiros e estatutos socioeconómicos.

Mas o que hoje vos quero mesmo contar vai para além do que deveria ser viver, disso já vos escrevi aqui , vai de encontro à estória da mulher que um dia acordou, se olhou no espelho e percebeu que metade da sua vida já estava contada nas marcas do corpo, nos primeiros cabelos brancos e nas primeiras rídulas ao redor do olhar; uma mulher de ar jovial e olhar triste mas de sorriso fácil e captado com ligeireza pelos olhares atentos dos seus, uma mulher desiludida com seu passado por se ter submetido demais às vontades alheias e não ter gostado mais de si como sempre lhe aconselhara sua mãe, sábia e lutadora. Até ao dia em que o espelho lhe indicou a única arma que precisava utilizar para reverter dias difíceis, noites solitárias, convívios ensossos, a arma de ser fiel a si, de acreditar em si, de sonhar-se a si.
Sabemos que não é fácil modificar padrões de vida, que não acordamos de repente uma outra pessoa e nem o mundo desperta completamente cor-de-rosa onde todos sorriem e onde não há vislumbre de maus exemplos, más pessoas. Mas posso-vos dizer com a certeza de estar aqui que tudo o que necessitamos para mudar é de acreditar. Acreditar no nosso íntimo, escutar a nossa intuição, despertar as armas secretas com que nascemos dotados e perseguir todo e qualquer sonho por mais disparatado que possa parecer é tarefa mais simples que se julga porque é algo inato ao ser-se humano.

A proliferação dos desvios que temos visto ocorrer nas sociedades, para que o mal semeie e se multiplique, não é inevitável nem marca da génese humana mas sim apenas produto daqueles que deixaram há muito de crer, de sonhar, de ser criança de coração, de amar e de se vestir de coragem. A coragem de nos enxergarmos, de nos ouvirmos, de nos transfigurarmos em nosso melhor poder é a arma que nos livra de dissabores, de mortes precoces, de dias cinzentos, de desamores fatais; a coragem de sermos magia de outrem, de vestirmos os corpos de sorrisos e abraços e a coragem final de aceitarmos que só com fé em nós primeiro poderemos encetar pela única estrada que a vida premeia: a estrada da magia de ser humano!  

 Posso-te dar um conselho? – então fecha os olhos, inspira e expira todo e qualquer dia cansado, ouve apenas o bater do teu coração, assimila todo e qualquer sonho por realizar, visualiza-te a sorrir, engrandece a imagem que tens de ti; abre os olhos e deixa o espelho devolver-te a magia que deixaste cair ao longo dos dias mais difíceis, concentra-te em ti, abre os braços e abraça-te porque apenas contigo terás de ajustar contas.
Sentes-te melhor? – é apenas o primeiro passo para que de hoje em diante sejas como a mulher de que falei, mais crente de que não é difícil viver se o fizeres com ajuda da única arma que necessitas: a crença em Ti!

por Nádya Prazeres

6.7.17

mais amor [imperfeições alheias]

Amar não deveria ser difícil nem corriqueiro, não deveria ser imposto nem dado a receios.
Amar é uma característica intrínseca ao acto de nascer, é uma força invisível que nos guia e nos protege em cada passo, em cada escolha de caminho, em cada obstáculo ultrapassado, é o próprio sentido de viver e sobreviver.

Mas ao longo dos anos vamos inventando várias formas de amar, ou antes de parecer amar, nas quais contemplamos mil e uma desculpas, abnegações, culpas, sortes e afins; e por tudo isto se torna tão difícil entender realmente o que significa amar, confundindo-se até com outros verbos e emoções. Há quem pense demasiado na lógica de algo que não é lógico nem certo nem programável, há quem desista de alcançar a verdadeira forma de o fazer, há aqueles que se negam a apreender as várias facetas do amor e outros que apenas enxergam uma delas.
Ajustes pertencem a esta incerta mas brilhante forma de sermos colocados à deriva de cada vez que amamos, de cada dia em que erguemos sorrisos à conta de amar o próximo e até nós mesmos; o amor por si é o mais elevado grau de sentimento que nos constrói de raíz, que nos permite albergar todos os outros sentimentos humanos que constam do cardápio de ser Homem. O amor deveria pois ser a força motriz e constante do ser humano, deveria ser o porta estandarte da união entre as pessoas, deveria ser fielmente cumprido em cada amizade, em cada laço familiar, em cada abraço fraterno, em cada beijo apaixonado, em cada detalhe que colocamos no nosso trabalho ou no prazer de hobbies e saídas entre amigos.
Amar não deveria ser falseado, enganável ou por uma obrigação social ou imposição. 

Mas se calhar questionam-se vocês porque havemos de amar qualquer pessoa se esta não nos retribui afectos? Bem, a principal questão a meu ver não é amar a custo de sofrimento nem falsamente apregoar que amamos qualquer desconhecido, mas sim entender e perpetuar na raíz do pensamento humano que o amor não pode ser moeda de troca mas sim de união entre povos, entre raças, credos ou filosofia de vida.
Amar é uma questão de respeitar, de cuidar, de proteger, é uma emoção complexa mas vital como o bombear do coração; é dele que a humanidade se deve alimentar, porque amar é engrandecer e é perpetuar a vida por caminhos saudáveis, justos, bonitos e confiantes.
Confesso no entanto que não é tarefa fácil e o mundo não interpreta todo da mesma maneira a força tremenda de amar e ser amado mas vale a pena continuar a combater o ódio e as maleitas com amor, com ternura e com fé de que a vida colorida e feliz é o que nos mantém alerta e aptos para realizar sonhos.
Amem-se e amem, as estrelas agradecerão o mundo mais iluminado!


1.7.17

adeus Junho

Junho foi um mês difícil, muitas pessoas perderam a vida, muitas perderam tudo o que tinham, muitas perderam-se na vida. Eu observo de fora, espero sempre o fazer de fora, pergunto-me onde está a justiça, onde termina esta forma estranha de se desvalorizar a vida humana, onde está o poder que não tem pressa em agir pela vida mas é o primeiro a fazê-lo pelo dinheiro. Em quanto estará avaliada a vida humana, não é cotada em bolsa, desvaloriza a cada dia que passa numa decadência que nenhuma moeda conhece. Como chegámos aqui? Que linha de pensamento decidimos ter? Que valores estamos a implementar nas futuras gerações... Junho foi isto, cheio de más notícias, de vidas perdidas e de falsos consolos.

Cá por casa mantivemo-nos vivos, ao que parece é cada vez mais um desafio. Apego-me aos meus, aos que me trazem alegrias diárias, longe de falsas palavras e preocupações. Apego-me ao trabalho que me mantém com a mente ocupada e longe dos dramas diários que enchem redes sociais, jornais e telejornais. Apego-me às pessoas cujas vidas [tão quase] perfeitas continuam a lutar e a transmitir luz. Descubro em mim 30 coisas boas e sei que descobriria mais se houvesse mais dias no mês. E mais um mês passou...

Recebo Julho com esperança, como sempre, porque nunca a largo, anda sempre comigo, faz parte de mim. Esperança num mês calmo, esperança no acordar da humanidade, esperança no que vem aí.
Vai ser um mês diferente, os avós por perto, as miúdas com mais atenção, eu com tanto para colocar em dia. Vai ser o último mês de escola antes delas entrarem de férias. Vai ser mais um mês de muito trabalho.

Bem-vindo Julho! ♥

Bem-vindo Julho! ♥

22.6.17

num sopro [imperfeições alheias]

De um sopro nascemos e num sopro morremos, no entretanto cabe a vida que nos é tão difícil de entender e tão curta para se absorver cada sonho, cada esperança, cada tristeza, cada luta, cada sorriso, cada bater do coração…

Quando recebi esta semana a notícia da morte de um amigo, com quem partilhei risos e trabalho durante 14 anos, fiquei sem qualquer palavra que expressasse a impotência de um ser humano perante a terrível natureza da morte, da doença que não se consegue combater, da dor que não sai do corpo nem da mente dos que ficam a velar o tempo que será diferente doravante.
Tentar confortar uma esposa e mãe, também ela amiga, que perde numa simples noite o seu “suporte” emocional, o seu companheiro de vida e o pai dos seus dois filhos menores, não é nem fácil nem suficiente para o vazio que chega sem aviso; nestas alturas ficamos do tamanho de uma estrela perdida na imensidão do céu escuro que é a morte, o infinito silenciar e o derradeiro suspirar após uma vida em que não se conseguiu almejar todos os sonhos nem partilhar todos os abraços.

Que jovem acredita passar por tal desespero no auge da vida, quando tem o necessário para ser feliz? Quem se imagina a sofrer com o diagnóstico de um cancro, a passar dias infindáveis por entre tratamentos agudos e a definhar por noites agitadas? Que homem ou mulher se sente capaz de enfrentar tão jovem a ideia de perda de um seu companheiro quando a vida parece caminhar para anos vindouros de arco-íris emocionais?

Eu sempre temi a morte, não sou capaz de ter uma visão singela de entender o fim e nem consigo perder o pânico de enfrentá-la, quando os meus tiverem de se despedir, quando as luzes se apagarem em partes do meu coração e quando eu mesma tiver de fazer a travessia para o nada. Porque não creio em outra vida, não corroboro as ideias de reencarnação e não entendo porque temos de ser finitos; dizem que a maturidade emocional nos concede mais calma, mais entendimento do sofrer nosso e dos demais e dizem que o tempo vai amenizando, não esquecendo, a dor da perda daqueles que nos alegram os dias, que nos ajudam a crescer e a sorrir, os que cuidamos e nos cuidam durante uma vida; dizem e eu prefiro acreditar que assim é, porque é menos doloroso, crer que um dia o nosso coração poderá sorrir de novo após percas irremediáveis, que aqueles que seguem o caminho do sono eterno nos cuidam de um sítio melhor mesmo que não saibamos qual nem nunca nos tenham mostrado.

Quando, na manhã de terça-feira, soube que menos um amigo teria a contar anedotas, a surfar nas ondas da Costa, a amar os seus, percebi mais uma vez o quanto a vida é um sopro entre o acordar e o adormecer.
 Toda esta trémula existência não pode ser em vão, não podemos miná-la com discussões infundadas, com ódios virais, com ameaças à natureza e ao nosso habitat, não devemos construir castelos de areia mas sim perpetuar afectos e construir sonhos com os que amamos e ao redor de dias felizes e noites serenas; podemos e temos de ser mais amor e menos raiva, mais ternura e menos desprezo, mais abraço e menos sofrimento, mais riso e menos choro, mais família e menos individualismo; precisamos de urgência nos momentos felizes, nos jantares entre amigos, nas caminhadas de pé descalço, na harmonia de mente e corpo, na saudade benéfica de reencontros, na música interna que nos faz bater o coração. E urge entendermos o quão belos somos, o quão efémera é a vida e o quanto perdemos de cada vez que não a sabemos estimar e nos perdemos por ninharias e coisas tolas.

Estou viva e convido-vos a viver mais, sempre melhor e num sopro de longa duração.


16.6.17

diário de uma vida e ponto

"Já falei aqui de óleos essenciais mas ainda há muito para dizer. Conforme me vou deixando conquistar pelos óleos vou conhecendo mais e mais sobre as suas propriedades e possíveis utilizações..."


O post de hoje começava assim, ia falar-vos de como podemos substituir tantas coisas que nos fazem tão mal por óleos naturais, isto se na quarta-feira não tivesse acordado com esta notícia que me deixou com um nó na garganta, um aperto no peito e muito pouca vontade de escrever.
Ontem não me atrevi a dizer palavra, eu sou assim, quem segue o blogue sabe que escrevo mais com o coração do que com a cabeça por isso, mantive-me afastada daqui.

Sempre atenta aos desenvolvimentos sobre o acontecido, fui partilhando informação no meu perfil pessoal do facebook e houve algumas notícias especiais que me abraçaram o coração como por exemplo esta ou esta,   pessoas que se uniram, sem importar a raça, a nacionalidade, a religião, estrato social, restaurou a minha esperança no ser humano.
Também ontem partilhei a notícia de uma jovem portuguesa que nos ensina como se reage às dificuldades. A Inês Alves tem 16 anos e vivia no 13º andar do prédio que ontem ardeu em Londres. A meio da noite Inês vestiu rapidamente umas calças e uma camisola e saiu para a rua com o seu telemóvel e os apontamentos de química. Ela nunca imaginou que proporção o "pequeno" incêndio iria tomar, as suas acções foram tomadas de forma preventiva e, dessa forma, ela achou que levando os apontamentos seria uma forma inteligente de aproveitar o seu tempo para rever a matéria para o importante exame que iria ter no dia seguinte.
 


O incêndio foi tudo menos um pequeno susto. Inês, e tantos outros, ficaram sem casa, pelo menos 30 pessoas perderam a vida, muitas ficaram feridas e ainda se contam algumas desaparecidas. Todas pertenciam a uma classe social baixa ou média-baixa. Perderam o pouco que tinham.
Um incêndio ainda com causas desconhecidas, um prédio cheio de problemas tantas vezes reportados pelos residentes, uma lei que beneficia proprietários, uma construção que precisa urgentemente de ser repensada.

Inês, depois de uma noite em claro, momentos traumatizantes, de um futuro incerto e com pouco mais do que a roupa do corpo, cumpriu o seu objetivo e fez o exame que pode conduzi-la a um futuro melhor. Inês ensinou-nos o verdadeiro significado de coragem e resiliencia... porque a vida tem de continuar...

Para ajudares a Inês Alves e a sua família clica aqui.

8.6.17

somos feitos de estrelas [imperfeições alheias]

Por vezes é-nos difícil percepcionar apenas as coisas que realmente importam para sermos felizes e deixamos o cérebro baralhar as contas da existência; cremos demasiado nas opiniões alheias, nas modas impostas pelos media, nos supostos milagres que nos hão-de transformar em super humanos e esquecemos o essencial de estarmos vivos, previlégio negado e roubado a tantos milhões.
Com as constantes notícias quase diárias de atentados terroristas, de guerras cada dia mais mortais, secas extremas e dilúvios que deixam pessoas sem casa, sem saúde e sem dignidade, dou por mim a tentar ser honesta com a vida e percebendo que é ingrato culpabilizarmos apenas os outros ou as vicissitudes das nossas escolhas quando afinal possuímos esperanças que outros nunca terão, temos um lar e família, rimos com amigos e trabalhamos num emprego remunerado, viajamos e a saúde vai sendo estável.
Claro que é humano querer mais, poder ser mais e até sofrer demais mas também tem de ser humano a clareza da mente para substituir o mais pelo melhor, o querer pelo poder e o bom pelo bastante; eu não quero mais mas sim o melhor que posso para que seja bastante estar vivo e são.

Os últimos meses têm sido para mim de reflexão, de interiorização de valores únicos e não negociáveis para que o bem estar físico e psíquico se torne a primeira e última coisa essencial ao meu viver; olhar o espelho e crer no reflexo, sem questionar o que falta mas abençoar o que existe, almejar melhores dias para lutar pelo que tenho e manter o que me faz sorrir, sentir a energia que cada manhã me permite ao abrir os olhos e não reclamar de alguns contratempos, fazer destes um ensinamento para ser melhor da próxima.
E posso dizer-vos que não tem sido fácil deixar de reclamar, de ser por vezes ingrata com a vida, de sentir o mundo contra mim, de me martirizar pelo que acho que os outros pensam, de me colocar em baixo apreço...nada fácil, mas necessário e essencial.

O que tenho conseguido, porém, é um restruturamento do meu ser que me beneficia e me ajuda a renascer perante aqueles que admiro, respeito e amo; somos sempre feitos de estrelas em que cada uma é acesa por aqueles que escolhemos albergar em nós e pelos que nos escolhem como albergue deles. A vida é complexa, teimosa, dura mas tão curta que jamais devemos não ser capazes, temos a obrigação de viver em pleno com o que nos é oferecido e sem julgar os caminhos alheios.
Porque continuo a acreditar que se cada ser apenas viver por si e para si, sem detrimento do bem ao próximo, será um passo gigante para pacificarmos a terra e iluminarmos o céu!

por Nádya Simão

[imagem]

25.5.17

a brincar com o perigo

O mundo está cada dia mais perigoso, cada dia mais distante do planeta terra idealizado em programas de natureza cândidos e séries televisivas onde tudo parece quase perfeito e onde não cabem problemas diários nem lutas inglórias; o mundo como o conhecemos está a regredir nos mais básicos direitos humanos, nos valores em que deveria assentar a fundação de nações livres e iguais em direitos e deveres.

É para mim, e possivelmente para muitos demais seres humanos, cada dia mais difícil de acreditar que um dia tudo será diferente e que poderemos deixar de viver em constantes sobressaltos, com medo de sair do conforto do lar, de termos o coração em constante aperto de cada vez que saímos para o trabalho, que vamos às compras, ao café, a um espectáculo ou ao cinema ou de cada dia em que os nossos andam pelo mundo. É incapacitante sentir que as acções humanitárias de muitos não suplantam o terror de guerras diárias, de conflitos socias, económicos, religiosos que nos entram por casa adentro sempre que ligamos a televisão para ouvir noticiários; o dia a dia vai-se transformando numa crónica impertinente de malfeitorias, num desenrolar de estatísticas mortais, no desespero constante de famílias destruídas, separadas, aniquiladas.
As gerações vindouras têm perante si desafios hercúleos e não creio que estejam totalmente apetrechadas para se conseguirem mobilizar, unir em torno do mais difícil preceito que neste momento falta: a liberdade de pensamento individual sem colisão com a liberdade do semelhante.

Estamos reféns de políticas onde impera o capital, o belicismo do mais forte, a economia do terror, a supremacia do dinheiro e onde o ser humano é moeda de troca, “carne para canhão” e onde os valores essenciais da democracia, da fraternidade e da igualdade são constantemente destruídos e usurpados pelas potências políticas mundiais.
E não me interpretem mal, pois também sou da opinião de que cada um de nós possa albergar pequenas culpas de como o mundo chegou a este extremo de negatividade, mas a maioria das decisões que competem à mudança radical necessária está nas mãos de uma classe política que urge modificar.

É tempo de nos unirmos mais, de nos sensibilizarmos com os que sofrem e dizer que basta!
É o momento agora de nos transformarmos e sermos líderes dos nossos líderes, mostrar-lhes o descontentamento, mudar os votos nas urnas, acender corações e despertar os mais novos para a capacidade extrema que o Homem tem de se suplantar em momentos de crise.
Eu farei a minha parte, façam também a vossa para que a nossa casa se transforme no LAR que sempre deveria ter sido: libertário, fraternal, igualitário, amado, pacífico e onde todos sejamos mesmo iguais (nas diferenças)!!



24.5.17

não levanto bandeiras


Hoje tinha decidido não escrever, não que não me apeteça escrever, gosto tanto de contar estórias, é preciso estar muito desmotivada para não o querer fazer. Este blogue é muito pessoal, espelha-me a alma, retrata-me a vida, sublinha os gostares; dele é difícil esconder os sorrisos da mesma forma que é difícil esconder as lágrimas e as preocupações. Têm sido dias, semanas, tristes para o mundo, não se vê lideres fazer nada a não ser assumirem que os terroristas são uns bandidos sem escrúpulos... até aí... se são terroristas... Falar sobre estas coisas no blogue não é muito a minha onda, gosto que este seja um espaço feliz e motivador, gosto de deixar escritas coisas que acabam bem mesmo que comecem mal, é a minha forma de prepetuar as minhas memórias. Porém, às vezes, é inevitável.

Theresa May "esclarecia" o povo de que o ataque no concerto de Ariana Grande tinha sido escabroso e cobarde como qualquer ataque terrorista mas que este em especial, por ter deliberadamente sido destinado a crianças e adolescente inocentes, era doentio. O que abala mais uma nação? O que abala mais um povo? O que abala mais um pai? O ataque não foi destinado a crianças... o ataque foi destinado aos pais delas... quem tem filhos saberá o que falo. O que nos dói mais? Um golpe em nós ou um golpe nos nossos filhos? Os ataques são sempre dirigidos a quem tem poder de decisão os meios é que podem ser muitos e este, foi sem dúvida doentio, mas (infelizmente) eficaz.

O mal dos lideres e das pessoas em geral é nunca se conseguirem colocar no lugar do outro. Se calhar a solução não é encher, novamente, as ruas de soldados, se calhar a solução é tentar perceber o que se está a fazer de errado, o que se está a fazer para motivar este tipo de reações, para que mentes doentias cresçam e se propaguem como um vírus. O autor do ataque é supostamente também ele um jovem, um jovem manipulado, como são a maioria das pessoas e jovens hoje em dia, ou não fosse o jogo da Baleira Azul um "êxito".

Todos os atos terroristas são condenáveis mas é igualmente condenável a forma como se continua a manipular as pessoas no sentido da guerra, da guerra ao terrorismo, seremos nós menos terroristas?

Vivo em Inglaterra e temo pelo meu futuro e segurança aqui, temo em especial pelas minhas filhas. Temo cada dia que o meu marido sai para trabalhar em Londres, evito ajuntamentos, fico em casa em dias de confusão, não quero viver com medo mas a cada dia que passa me questiono se não estaria melhor num canto mais reservado de Portugal, onde as minhas filhas pudessem correr livres sem que uma bomba lhes caia aos pés.
Tenho plena consciência de que sou uma cidadã do mundo acima de tudo, não levanto bandeiras, tenho-as no coração, não mudo perfis, não estou com este ou com aquele país em nenhum momento particular mas sou talvez das que mais chora o negro em que se está a tornar o presente, a escuridão em que mergulhamos o futuro. Não levanto bandeiras mas quero ainda acreditar que somos todos feitos da mesma massa, que um dia far-se-á luz na cabeça e calor no coração da humanidade.

[imagem]

11.5.17

finitude [imperfeições alheias]

O tempo corre, é um maratonista de fundo que galga vidas com a rapidez de relâmpagos em noites de trovoada, corre e não o conseguimos alcançar nem parar como nos filmes ou nas fotografias que imortalizam momentos únicos e irrepetíveis.
Creio que ao fim de séculos ainda não nos capacitámos deveras da finitude da nossa condição humana, da rápida transformação que sofremos desde o dia do nascimento até ao último suspiro que nos entrega à dama de negro, à morte intemporal e infinita, sim porque apenas a morte é infinita e não corre, dorme na sua plena condição de "para sempre"; há gente, bastante gente, que acredita que não seja assim infinito, que há "vida" para além da morte e que nos estão destinadas várias passagens por este planeta, por este mundo ao sabor de tempo ilimitado mas eu não consigo crer em tal visão mágica, mais reconfortante até, talvez.

Confesso-vos que gostava de acreditar numa infinidade de vidas que nos estão destinadas ao longo do tempo, dos tempos que vão correndo e deixando marcas no corpo para depois se regenerar e de novo nascermos, como num ciclo gigante de vidas e construções de memórias, de momentos e de estórias; gostava de ter uma fé inabalável e acreditar que somos vários ao longo de séculos e não um só ao longo de algum tempo concedido. Mas não, não tenho e cada dia menos vou crendo em destino ou reencarnação ou outra qualquer explicação e por isso vejo o tempo galgando à minha frente e vejo o espelho mostrando mais rugas, mais cansaço, mais traços da passagem rápida dos anos que já vivi, sabendo que não se volta atrás e que o tempo não abranda, não ameniza, não retira passado e não se padece com a nossa vontade ou com caprichos de quem o tenta contornar ou trespassar.

O tempo corre, é ágil e nada o detém nem mesmo a fé dos que julgam tê-lo para todo o sempre; e entre tantas limitações o que fazemos para aproveitar cada minuto?
Parece-me que cada dia mais nos destruímos, mais confundimos as horas e esquecemos o quão limitados estamos para aproveitar tudo o que cada vida que nos coube nos oferece, andamos cegos, surdos e mudos sem entendermos que o único milagre a que temos direito é o de nascer e só esse deveria chegar para que nossos cérebros se preocupassem em correr ao lado do tempo, fazer parceria com a natureza e acampar o coração num destino pleno de vivências, de risos, de paz, de amores e descobertas brilhantes. Toldamos a mente com pressas diárias, com sofrimentos desnecessários, com guerras inúteis, com discussões fora de tom e pouco aprendemos com os avisos que a vida vai dando, com os empurrões que o tempo vai soprando.
O ser humano tem capacidades em si que transcendem a de outros animais mas parece ter vindo a diminuí-las, a esquecer o que de magnânimo pode deixar como herança aos seus, a preferir as acções negativas e a destituir-se de responsabilidade perante o tempo que gasta, que rouba, que encurta. Os nossos melhores aliados têm sido menosprezados em detrimento de valores monetários, belicistas, desumanos, destrutivos onde o ser humano se enreda e se danifica diariamente sem noção do quanto finito é, do quanto vulnerável está perante as adversidades, doenças, calamidades, acidentes, acasos negativos, infortúnios.

Talvez agora estejam a pensar que escrevo estas linhas com pessimismo e sobre um assunto negativista mas não, escrevo estas linhas com o pensamento esperançoso de que comecemos a ouvir a nossa voz interior, a cuidar do nosso corpo como cuidamos da casa, do automóvel, dos outros, a dar importância aos detalhes e a minimizar o tempo gasto com assuntos inférteis e debates infrutíferos. É óbvio que a perfeição não existe, que os erros acontecem, que somos humanamente bipolares porque andamos equilibrados entre a mente e o coração e muitas vezes não conseguimos o equilíbrio saudável que almejamos mas também é um facto inegável que nos temos vindo a perder, que temos optado pelas soluções mais fáceis, que temos abdicado de sonhos realistas e não temos sabido interpretar os avisos constantes que o planeta nos faz nem ouvido com clareza os sussurros que nosso corpo nos transmite a cada acordar; num instante estamos vivos e num mesmo instante morremos, sem volta atrás porque não vivemos numa tela de cinema, sem tempo para questionar: fui feliz?

O tempo anda, é um veloz corredor de distâncias que atravessa dias e anos com a urgência de um oásis em pleno deserto, anda em passos apressados que não pudemos imitar e só nos resta colocá-lo lado a lado e com ele galgar a vida em passos satisfeitos por caminhos únicos sem perder de vista a essência do amor, do equilíbrio, da paz, da sabedoria e mantendo o foco na construção de flashes memoráveis, inesquecíveis, intensos e perpetuados nas gerações vindouras.
Eu por mim vou falar ao tempo, correr com ele e redescobrir-me ao espelho com a convicção de que desperdiçar o milagre da vida é dar à morte alegrias diárias…e eu da morte quero distância, a distância que me esteja ainda concedida para sorrir, ouvir, observar, reagir, amar, construir, viver!!!
Aliem-se ao tempo, corram com ele e sejam mais felizes.


10.5.17

guardiães da Terra


Deram-nos o planeta mais bonito, mais colorido, mais cheio de vida, de mudanças, de amor. Deram-nos porque nos deram também a inteligência, a bondade, a sensibilidade... porque acharam que um planeta assim teria de possuir habitantes excecionais com habilidades suficientes para o cuidar e proteger, com esperteza para o saber usar e tirar dele o melhor partido sem o ofender, com bondade para receber mas também dar. Fizeram de nós os guardiães da Terra e nós, mostrámos o lado negro que todas as criações e criaturas têm e com ele devoramos, partimos, estupramos, matamos, esquecendo-nos que quando não restar nada... a nossa existência não fará qualquer sentido, porque fomos criados para ele e não ele para nós.

Notícias como esta ou  esta têm-me feito pensar profundamente sobre a minha responsabilidade no que toca ao estado do "nosso" planeta. Não adianta culpar apenas as grandes potências económicas, os interesses capitalistas e o vizinho, será que cada um de nós faz tudo o que poderia fazer para evitar o "apodrecimento" da Terra? Eu não, estou longe de encarar este assunto como prioritário, tenho consciência que podia fazer mais e melhor e sei que, se eu não bebesse água em garrafas de plástico, a percentagem de plástico para tratar ou deitar no mar seria um bocadinho (pequenino) inferior mas, como diria Dalai Lama: If you thing you are too small to make a difference... try sleeping with a mosquito in the room.

Nunca é tarde para mudar e se pensar numa perspetiva minimalista... está na hora de valorizar mais o meio que me rodeia e ter mais cuidado com os detalhes que não parecem importantes, mas são. E com as palavras de Gandhi me inspiro: be the change you wish to see in the world.
Embarquei então em mais esta maratona de aprendizagem. Primeiro, começar por me sensibilizar mais pelo que afeta a natureza pois, indiretamente, em algum ponto, irá afetar-me a mim ou aos que me seguem. Depois, aprender como evitar o máximo impacto possível. Por fim, se isto inspirar as minhas filhas, as filhas delas, etc, já terá valido a pena, e se te inspirar também a ti, então terei sido um "mosquito" bem barulhento. ♥

27.4.17

ritmo zero [imperfeições alheias]

Há dias que nos levam a questionar por onde caminha a humanidade, por que estradas sinuosas continuam os seres humanos a trilhar futuros cada vez mais sombrios, desgastados e sem final feliz à vista, o que deixaremos às gerações vindouras que apenas vão conhecendo o lado mais sombrio do ser humano...

 Enquanto navegava pela internet, num dos sites de notícias online que sigo, deparei-me com uma história que me deixou ainda mais perplexa ao entender a extensão da crueldade humana para com seus semelhantes quando estes se encontram indefesos; tratava-se de uma reflexão sobre a performance artística "Rhythm 0", ousada e complexa, talvez até polémica, ocorrida em 1974 no estúdio pessoal da artista plástica e performer Marina Abramovic onde a mesma se propôs a expôr o seu corpo, vestido, durante seis horas para que os espectadores pudessem interagir consoante suas vontades e não tendo ela qualquer acção de resposta ou defesa; nesta performance arriscada existia uma mesa com 72 objectos dos mais agressivos (lâminas, facas, cordas, algemas, uma pistola carregada...) aos mais inofensivos (penas, flores, escova de cabelo...) e que poderiam ser utilizados pelo público a seu bel prazer sem que a artista se defendesse ou evitasse.

 Seria de esperar para quem, como eu, acredita na bondade interna do ser humano que a performance tivesse decorrido com quase nenhuma má intenção e todos os presentes tivessem entendido o motivo por detrás de tão perigosa decisão: ficar à mercê de desconhecidos como sendo um objecto inanimado ou um corpo sem protecção senão a dos mesmos interagentes; mas de facto nada de ternura, de compreensão ou pacificidade aconteceu durante as seis horas levadas até ao fim por Abramovic que foi sujeita a cortes no pescoço e braços, despida, apalpada, acariciada sexualmente, agredida com uma coroa de espinhos na cabeça, ameaçada com a arma carregada, humilhada...conseguindo mesmo assim não interromper a performance, não se defender nem dizer uma palavra contra os que se serviram do seu corpo para exorcizar sabe-se lá que demónios ou frustrações pessoais. No fim da performance e após cuidados médicos, a artista enfrentou o público com lágrimas e palavras de mágoa por perceber na pele até onde pode ir a crueldade dos seres humanos quando em multidão se deparam com alguém solitário, indefeso...

 Podem questionar o método desta performance, achar que a artista se expôs deliberadamente e por isso se sujeitou ao que cada um tem de pior em si e muitos dirão até que teve aquilo que merecia porque só uma "doida" se deixa vandalizar sem qualquer defesa ou reacção; mas o que para mim se deve retirar deste acontecimento já com 4 décadas é que se fosse hoje as consequências teriam porventura sido muito piores e não duraria seis horas uma mulher frágil e indefesa no meio de pessoas cada dia mais violentas, frustradas, agressivas, insensíveis e covardes até.
 Será o Homem cruel por natureza? Teremos todos dentro de nós uma latente crueldade apenas à espera da oportunidade certa de se revelar, poderemos todos um dia em nossas vidas descambar para actos de violência gratuita? Ou teremos nós a capacidade de escolher entre o bem e o mal, de discernir o correcto e de aniquilar dentro de nós as vontades mais primárias e animais?

Estas questões trazem-me à memória notícias recentes de casos idênticos que se tornam ainda mais graves por se tornarem em espectáculos de bullying, de violência gratuita, filmados por um qualquer telemóvel anónimo sem que se trate de uma performance isolada e vigiada; enquanto que no caso de Abramovic, tendo contornos tristes de percepções erradas sobre o que é ser humano e repeitador para com os demais, se criou uma atmosfera possivelmente potenciadora de reacções mais ou menos sádicas (pese a culpa de cada um dos espectadores que ultrapassou o limite da liberdade alheia), nos dias de hoje cada ataque aos mais enfraquecidos é feito em plena praça pública onde qualquer um de nós se pode ver de repente agredido, violentado, agrilhoado, desrespeitado, indefeso perante a força dos que agem em bando reforçados pela negligência de forças de ordem ou políticas estanque à mediocridade da mais vil forma de ser humano: a cobardia do que sózinho é nada e em conjunto se torna tudo!

por Nádya Prazeres 
 

25.4.17

pela paz

Acordo apreensiva com o estado do mundo. Observo o meu pequeno mundo de coisas pequenas mas doces. Como se foge ao que nos rodeia? Como se faz para não deixar que o ambiente hostil se entranhe nas paredes do nosso ninho? Como observar os direitos da mulher serem depositados nas mãos de machistas extremistas, sem ficar preocupada com as mulheres que carrego no coração, aquelas que fazem o meu corpo mover-se, a vida acontecer. Como?...

A L. a resolver os problemas com a irmã com pequenos gestos violentos, a vitimização da C. às queixas da irmã, a minha revolta em respirar num mundo em que se incentiva a guerra como resposta às birras e atos insanos de lideres. Como explicar que violência gera violência a uma criança de 5 anos? Como explicar a uma de 10, que luta silenciosamente contra o bullying a que é submetida na escola? Como mostrar as qualidades de um mundo que cada vez tem menos? Como ensinar a bondade quando ela se afunda na maldade do povo? Como explicar o respeito quando se canaliza o ódio através de insultos que não escolhem idades, nas redes sociais? Como incentivar a coragem numa sociedade de covardes?

Mais uma vez, tento que entenda que a violência é inimiga da razão, não resolve problemas, não nos faz sentir melhores e não é forma de argumentação ou entendimento. Diz que compreende e que quer pedir desculpa. Aceito mas relembro... às vezes não há desculpas que resolvam atos impensados de ações impróprias. Violência não é solução, é problema.

Ligo as notícias e adultos respondem com palavras amargas a provocações, troca-se balas como quem troca cromos de futebol e eu preparo a minha filha para a paz... será que vai ser essa a realidade que ela irá conhecer? Onde estão os sonhadores de Abril?

13.4.17

escravidão [imperfeições alheias]

Há poucos dias assistia a um episódio de uma das minhas séries favoritas que debatia o tema da escravatura sexual, do tráfico de mulheres desde tenra idade para usufruto de homens ricos e perturbados, sem escrúpulos ou decência.
Nesse contexto fazia-me pensar no quão pouco a sociedade evoluiu em termos de responsabilidade para com as suas crianças, adolescentes indefesas, mulheres subjugadas e enganadas por promessas vãs; o quão limitados continuam os meios de justiça e defesa e o quão retrógrado e sexista se mantém o pensamento do homem. Tentar entender o que está por detrás da necessidade de abuso, humilhação e degradação da mulher em qualquer idade é de extrema dificuldade e nem sequer deveria ser algo existente num ser dotado de inteligência, de racionalidade, de educação.

A cada ano mais mulheres são aliciadas via internet, a partir de locais rotineiros como suas escolas, cafés de bairro ou centros comerciais, a partir de anúncios falsos apelando a uma carreira de manequim ou trabalhos sazonais bem remunerados, pelo deslumbramento de uma vida num país europeu e glamoroso; a cada dia aumenta o número de raparigas violadas na sua faculdade, raptadas em plena luz do dia, por aquele que se fez passar por jovem num perfil falso de uma das variadas redes sociais, aumenta a pressão social por carreiras milionárias, pela beleza imaculada e perfeição de corpos plásticos e flawless
 O tráfico humano e/ou sexual não é um fenómeno recente e, por isso, mais difícil se torna perceber de que modo têm os governos sido brandos na justiça às vítimas, parcos nos meios de combate e quase cegos na tentativa de erradicação de tal psicopatia global e comportamentos egocêntricos e destrutivos maioritariamente masculinos. Mas a mim, pessoalmente, há um fenómeno dentro deste “mercado da carne” que ainda me perturba mais, se é que é possível, quando percebo que no seio das organizações mafiosas controladoras deste ignóbil abuso estão diversas mulheres e, muitas delas, com cargos de comando e violência mais acérrimas que muitos homens.


Seria de esperar que uma mulher livre, adulta, inteligente, independente, muitas vezes casada e mãe de outras mulheres, fosse acérrima defensora dos seus direitos enquanto mulher e cidadã e protegesse a sua própria prole como o fazem as fêmeas na natureza. Seria de crer que neste mundo obscuro não existissem mulheres que se gratificam com a humilhação das suas demais, que as recrutam e aliciam com falsas promessas, que as maltratam e agrilhoam para que sejam elas mesmas premiadas e consideradas pelos seus pares de sexo oposto. Se já é atroz este comportamento por parte do homem, excepção feita aos também vítimas do mercado de escravatura e abuso laboral ou sexual e aos que lutam por erradicar tal mal, criando campanhas massivas apoiadas por figuras reconhecidas do cinema, música, artes, mais me custa conceber a mulher por detrás de tais atitudes contra a sua natureza dita protectora e geradora de vida.

Segundo Salil Shetty, o secretário-geral da organização Amnistia Internacional: “É inacreditável que no século XXI alguns países ainda tolerem o casamento infantil e o estupro marital enquanto outros proíbem aborto, sexo fora do casamento e união entre pessoas do mesmo sexo, que são até puníveis com pena de morte”. Muitas destas prácticas, que vão para além das organizações criminosas, são perpetuadas pelas famílias e consagradas como tradição por uma grande maioria de países ‘subdesenvolvidos’ e do médio-oriente onde a religião se sobrepõe, por vezes, às leis e constituição de sociedades onde o valor da vida humana é baixo e o das mulheres quase nulo.
É preocupante e assustador que haja tanta dificuldade, e muitas vezes falta de interesse dos que governam, em criar leis mais condizentes com este tipo de crime, em obter justiça mais célere e compensatória para as vítimas de qualquer sexo ou idade, em preservar a intimidade e liberdade individual de cada ser humano; o tráfico humano estende-se como um polvo por todos os países, por todas as sociedades, é transversal a qualquer ideologia, religião, política e é muito provavelmente das situações mais complexas e difíceis de erradicação, principalmente quando aqueles que o podem travar são cúmplices directa ou indirectamente destas práticas atrozes que atentam contra o mais básico valor humano: a liberdade.

Num mundo que, continuamente, gera diferenças de classes, que celebra o sucesso desleal e competitivo, que denigre seres apenas por considera-los diferentes do dito normal, que premeia a beleza sintética e os corpos criados em ginásios e laboratórios de estética, que prende e silencia as vozes contrárias em sistemas absolutistas, num mundo onde não se é livre quando se nasce mulher, onde o trabalho infantil é ainda uma realidade "escondida" para enriquecimento de umas quantas elites da moda, do futebol, da publicidade, num mundo onde cada vez é mais difícil ser David (já não se destrona Golias), num mundo assim há cada dia menos espaço para o sonho e mais tapetes estendidos para o inferno.
Porque todos os dias há uma criança abusada, uma adolescente raptada, uma mulher violada, um homem escravizado, um menino ilegalmente adoptado, um bebé vendido, uma jovem agredida psicologicamente…todos os dias milhares de pessoas, na sua maioria mulheres, vivem o inferno muito antes da sua morte.
E são dados divulgados pela Amnistia Internacional que se tornam preocupantes, que me deixam a pensar no que nos temos tornado enquanto seres humanos pensantes e evoluídos, ou assim parecemos:

*150 milhões de raparigas com idade inferior a 18 anos já foram agredidas sexualmente pelo menos uma vez, e em grande parte por membros familiares.
*142 milhões de raparigas estão em condições propensas para casarem com idade menor até 2020 (dados desde 2011).
*14 milhões de adolescentes dão à luz todos os anos, sendo a maioria das gravidezes resultado de sexo forçado ou indesejadas.
*215 milhões de mulheres não têm acesso a métodos contraceptivos, mesmo as que querem evitar uma gravidez.
*A actividade sexual entre pessoas do mesmo sexo é ilegal em pelo menos 76 países, dos quais 36 em África, e punida com pena de morte em vários estados Árabes.

E por tudo isto, enquanto assistia na ficção a algo tão real, me revolta a contínua situação de milhares de adolescentes ludibriadas por falsas promessas no mundo da internet onde predadores se aproveitam de suas carências, de autoestimas baixas, do factor crítico de uma idade problemática e insegura, das indefesas mentes que se deixam iludir por oportunidades no mundo da moda, do espectáculo e das próprias relações familiares cada vez mais silenciosas e distantes.
É certo que a grande maioria dos pais destas jovens se preocupa e tenta alertá-las do perigo, muitos deles têm até relações abertas e francas com suas filhas mas sabemos que cada dia se torna mais difícil a proximidade entre gerações e muitos dos progenitores não sabem como funcionar com tanta informação do mundo virtual ou até proteger de ameaças tantas vezes veladas ou vindas de pessoas conhecidas, como familiares, amigos ou vizinhos.

A sociedade está permeável à prática de crimes cibernéticos, à exploração dos medos e inseguranças humanas, à fácil mentira e criação de fantasias, e torna-se uma luta hercúlea contra as mafias globais, contra a descaracterização do que é o bem  e até contra a opressão da religião que em muitas civilizações se sobrepões à lei ou à justiça; porque quando somos privados de informação, quando somos agrilhoados no pensamento e quando nos retiram qualquer dignidade, a consequência de uma vida de abusos e violência parece tornar-se a única saída.
Resta àqueles que podem modificar leis, que podem instaurar práticas de protecção, que podem e devem investir na educação e aplicação dos direitos básicos do Homem e a todos os lutadores no seio desta causa global, continuar a acreditar que um dia os dados estatísticos serão diferentes e ser mulher não será per se condição para sobreviver ou viver o inferno in loco.

por Nadya Prazeres